Fotos: Andressa Colbalchini
Com 12 anos de trajetória, a banda de Blumenau chega em 2025 apresentando a melhor fase de sua carreira. Em conversa para O Curiosólogo, os membros da Adorável Clichê falam sobre sua história e perspectivas de futuro.
Por: Renan Bernardi
Atualizado pela última vez: 08/04/2025, às 15h03.
Entre os dias 15 e 23 de março de 2025, a banda Adorável Clichê, de Blumenau, fez as duas primeiras apresentações em Florianópolis da turnê de seu mais recente álbum, sonhos que nunca morrem, que saiu no ano passado.
Lançado pelo selo da Balaclava Records e incluído em importantes listas dos melhores álbuns de 2024, o novo trabalho da banda chegou na capital catarinense depois de ter passado por palcos de São Paulo em apresentações junto à banda norte-americana DIIV e também no Sesc Pompéia.
Em Florianópolis, a banda se apresentou primeiramente no Inferninho da Bro Cave (onde as fotos que ilustram essa matéria foram tiradas) no dia 15 e, no dia 23, a Adorável subiu no Palco Centro-Leste da Maratona Cultural 2025. Entre essas duas apresentações – precisamente no dia 18/03 – conversei com os membros Marlon Lopes da Silva, Gabrielle Philippi e Felipe Protski por chamada de vídeo para, a partir desse atual e ótimo momento da banda, poder contar toda sua história.

Quem vê os jovens rostos que fazem parte da Adorável Clichê, pode estranhar o fato de a banda estar completando 12 anos em 2025. Mas isso é explicado pelo local onde tudo começou: nos corredores do colégio. “Primeiro violão eu ganhei com 10 anos de idade e, em 2011, eu fiz minha primeira banda, que nem tinha nome nem nada, era só com o pessoal do colégio, ainda na época do [Ensino] Fundamental”, conta Marlon. “Depois eu fiz a minha primeira banda mesmo, que chegou a se apresentar, que foi o Garrafas Voadoras. Foi no Ensino Médio, eu tinha 15 anos, sei lá, 16. E aí, depois, ainda meio que com o Garrafas acontecendo – mas nem tanto – a gente formou a Adorável Clichê, que só formou porque eu conheci o Diogo [n.e: Diogo Leal, membro da primeira formação do grupo] tocando com minha outra banda. Enfim, a gente foi ficando amigo, foi fazendo umas jams, ele teve a ideia de chamar a Gabi [n.e: Gabrielle Philippi, vocalista da Adorável Clichê] e aí formou a banda.”
Gabrielle também lembra dessa gênese da Adorável e comenta sobre como entrou para o grupo: “Com 15 anos eu fiz minha primeira música no violão, aí eu cantava nos corredores da escola, já no Ensino Médio, onde o Marlon me conheceu. Aí, entre meus 15 e 16 anos, eles me convidaram pra fazer essa banda. Eu já tinha visto a banda deles se apresentando na festa junina da escola e eu pensava: ‘nossa, pra essa banda ser mais legal, eu tinha que tá cantando nela!’. O que é engraçado, porque dois dos integrantes estão agora com a gente, né? Que é o Marlon e o Geisler [n.e: Gabriel Geisler, atual baixista do grupo], que faziam parte dessa bandinha aí: o Garrafas Voadoras.”
Apesar da banda reunir hoje mais amigos que se conheceram no colégio, apenas Marlon e Gabrielle estão no grupo desde seus primeiros ensaios, o que demonstra uma grande afinidade da dupla em trabalhar suas músicas juntos. “Eu acho que é uma coisa mais: eu gosto do que o Marlon faz e ele gosta do que eu faço”, defende Gabi. “Não é muito do tipo: a gente ouve a mesma coisa, entendeu? A gente tem uns gostos parecidos, mas não costuma ouvir a mesma coisa. […] Eu gosto também assim do, digamos, senso estético do Marlon e, às vezes, eu entro com umas adições que eu acho que agrega. Nós dois trabalhamos bem juntos.”
Falando ainda sobre os primeiros anos da Adorável Clichê, Marlon aponta as dificuldades que a banda, localizada em uma cidade do interior catarinense, teve para se estabelecer e criar um próprio circuito onde pudesse se fazer acontecer. “Acho que o mais foda de tu fazer uma banda, por exemplo, em Blumenau ou numa cidade que não tem uma tradição cultural de praticamente nada – ah, a gente tem lá essas coisas como Oktober, mas não tem um circuito, bandas, referências, né? – é que é muito difícil achar gente pra tu trabalhar com, entendeu? […] E quando tu é um pivete de 17 anos, 18, você não tem muito com quem trocar. E eu acho que isso refletiu muito no fato de que a gente só ficou tocando por aqui e ainda misturava cover no início.”
Mesmo sem muitos pares ao seu redor, a Adorável chegou aos três anos de existência em 2016 com um repertório e uma estética autoral que possibilitaram a produção do primeiro EP da banda: São Tantos Anos Sem Dizer.
Com Diogo Leal e Lucas Toledo acompanhando a dupla na formação da banda, o trabalho foi gravado no quarto de Marlon – assim como foram todos os trabalhos da banda até então. “Foi aqui no quarto, aqui em casa. Mas o que aconteceu: a gente tentou gravar em estúdio, mas não conseguiu por diversos motivos, não ficou legal. Aí a gente pegou e foda-se, vamo gravar a gente mesmo e o que sair, saiu”, defende o guitarrista e fundador do grupo. “A gente pegou e gravou por conta mesmo e soltou no mundo. Aí já foi um upzinho pra gente, sabe? Porque foi um passo pra frente do que eram as gravações antes. Eu acho que foi mais num sentido estético, porque a gente começou a ter mais referências de uma coisa mais shoegaze, de um Sonic Youth ou alguma coisa nesse sentido, um indie, alguma coisa assim, e a gente começou a evoluir a partir dali, colocando mais reverb no vocal e tudo […] A banda de fato começa com esse EP, na minha opinião, sinto que tudo que ela é hoje é uma continuação daquilo ali que começou naquele EP”, conclui ele.
Com esse trabalho lançado, além dos próprios membros terem uma melhor noção de como a banda deveria soar, também se iniciou uma maior circulação da Adorável por outros locais, onde começaram a ter um melhor diálogo com bandas que compartilhavam estéticas e sonoridades com eles. “Logo depois, não muito tempo depois que a gente gravou esse EP, a gente já foi tocar em Curitiba pela primeira vez, ainda na época foi junto com a Terraplana”, conta Marlon.
Também localmente, na própria cidade de Blumenau, uma cena de música autoral voltada para o rock alternativo foi se estabelecendo nessa época com a criação do selo Aquagreen Records. “Quando a gente quase que já tava no álbum, depois que tinha lançado o EP já, o Roberto [de Lucena], da Taunting Glaciers, fundou um selo que era Aquagreen Records e juntou a galeria toda que fazia algum som meio que alternativo. E aí surgiu a Wolken, surgiu Between Summers, surgiu Rec On Mute, a própria Taunting e outros projetos. Foi uma épocazinha que durou, sei lá, um ano? E foi bem legal, porque rolou um circuito, tinha shows. Aí a gente tocou com Between, tocou com a Wolken – inclusive, quando a gente trouxe o Terno Rei aqui pra Blumenau, a gente abriu com a Wolken. Enfim, foi uma troca de tempo curto, que a pandemia matou tudo isso, mas foi bem legal.”
O próprio lançamento do EP, no dia 16 de dezembro de 2016, é bem simbólico para perceber as diferentes conexões que a banda começa a fazer a partir da apresentação fonográfica de seu som. “Eu lembro que a gente lançou num dia o EP e fez o show no dia seguinte. Foi ainda com uma banda da Europa que veio tocar aqui em Blumenau – na época ainda tinha a BNU PNX [n.e: produtora de eventos de punk rock, hardcore e música alternativa de Blumenau] que fazia uns eventos – se chamava Time and Distance. Foi bem legal, eles assistiram nosso show todo mundo viu sentadinho, bem massa”, lembra Marlon.

O caminho que leva a banda do EP para o primeiro álbum, O Que Existe Dentro de Mim, lançado em 31 de agosto de 2018 pela Nuzzy Records [n.e: selo criado em Balneário Camboriú por Gabriela Jardim], tem muito a ver com a troca criativa que gerou as novas composições da Adorável Clichê. “No EP, eu compunha as músicas no violão, apresentava as músicas pros garotos no ensaio e aí a gente incrementava o instrumental, mas era basicamente isso”, conta Gabrielle. “Aí, no álbum, a gente começou a compor todo mundo junto no ensaio. Tinha coisas que eu fazia em casa, sozinha, mas muitas coisas surgiam no ensaio, até letra inteira também. Eu acho que ‘Eu Só Queria Que Tudo Tivesse Um Fim’ e ‘Crescer’ foi num mesmo ensaio que a gente fez.”
No período de lançamento do álbum, a banda acaba agregando Felipe Protski para a formação depois do mesmo ter feito – junto com Gabrielle – a capa do trabalho. “Os garotos eram amigos dele já por causa da Aquagreen, e a gente tinha chamado ele pra fazer a arte do álbum, só que a gente gostou tanto dele e tudo mais que a gente ficou: po, entra pra banda!”, lembra a vocalista.
Protski que, assim como na banda, entrou nessa conversa um pouco depois do começo, conta como foi essa primeira aproximação com o grupo. “Cara, eu ouvi a Adorável tocando num festival de bandas lá no Ahoy [n.e: casa de shows de Blumenau], inclusive eu mandei um e-mail pra banda na época e que o Marlon achou tempos atrás, com eu falando ‘que legal que tem bandas assim na cidade’. […] O baixista antigo era primo de um cara que tocava comigo numa banda de stoner, aí ele me apresentou e assim foi indo. Foi bem legal ter sido convidado pra entrar, porque eu não esperava por isso e é legal tá perto dos amigos, fazendo um negócio massa desse jeito. Eu tenho bastante orgulho de poder ouvir as músicas e pensar que, mesmo que às vezes eu não pude participar muito, porque eu tinha muito trabalho no final de semana, só o fato de que uma parte minha faz parte disso, que eu faço parte desse negócio, é bastante orgulho. Eu sou fã da banda, eu não posso negar!”
Primeiro como tecladista e depois como baixista, Protski hoje ocupa a função de guitarrista e backing vocal, acompanhando a banda desde a turnê de lançamento do álbum de 2018 – que aumentou ainda mais o reconhecimento da banda pelo país. “A gente começou a circular bastante depois do lançamento do álbum, a gente começou a ir pra São Paulo bastante, pra Curitiba, fomos pra Porto Alegre, Floripa”, conta Marlon. “A gente circulou basicamente em todos os lugares que a gente queria tocar. Pra gente, sempre foi um objetivo chegar em São Paulo, porque eram poucas bandas da nossa cidade que tinham ido para lá. E eu lembro que, a primeira vez que a gente foi pra São Paulo, até o jeito que a galera começou a valorizar um pouco mais a gente mudou aqui. Ali a gente começou a circular e foi bem massa. Mas também não durou muito tempo, porque foi do meio pro final de 2018, 2019 a gente tocou mais um pouquinho e 2020 já veio pandemia e lascou tudo de novo.”
O período entre 2019 e 2020 foi transformador para a banda. Além da entrada de Protski, ainda teve a saída de Diogo Leal e Lucas Toledo – o que trouxe Gabriel Geisler para a formação, lembrando os tempos de Garrafas Voadoras.
Com a chegada da pandemia e a impossibilidade de realizar ensaios e gravações em grupo, a Adorável começou a experimentar novas sonoridades através da gravação de singles. “A gente não podia ensaiar, só que a gente continuava trabalhando em música. Daí, pra se manter ativo, tipo em rede social, etc, era conveniente a gente lançar singles”, explica Gabrielle.
E sobre a experimentação que veio com esses singles, Marlon comenta: “Por exemplo, ‘Derrota’, que foi a primeira ali: pô, eu sempre quis muito experimentar com sintetizador, queria ter usado mais lá no primeiro álbum e tal. E aí, primeiro single que a gente lança é um single onde o sintetizador praticamente é o principal elemento dele, então ali já foi um troço dessa experimentação. E é uma música que eu diria que foi o nosso melhor single, na minha opinião. Eu me orgulho muito de ‘Derrota’, é uma música muito gostosa, as coisas acontecem, ela tem um fluxo legal. A parte final foi muito legal, porque o Protski ajudou muito a incrementar os vocais ali, dar aquela lapidada. Eu acho bem rico aquela explosão no final, é uma coisa bem diferente. E, cara, ainda mais do jeito que a gente gravou, acho que ficou bom pra caralho. Enfim, a gente podia tá arrumando desculpa, mas a gente tava lá fazendo um puta som.”
Lançando singles durante todo o período pandêmico, mas sempre pensando em construir um novo álbum como banda, as experimentações encontraram na música “amarga” a sonoridade que definiria o álbum sonhos que nunca morrem, lançado somente em 2024. “Ali que a gente entendeu mais ou menos o que que ia ser o álbum, aí começou a pegar e dar uma ajeitada em outras que tavam prontas e que dava pra encaixar e encaminhar tudo mais ou menos para uma direção”, fala Marlon.
Um dos destaques em torno de sonhos que nunca morrem é o fato do álbum ter sido lançado pelo selo da Balaclava Records, de São Paulo, o que possibilitou uma maior circulação e atenção da imprensa para o trabalho.
A relação entre banda e selo se deu ainda antes do álbum estar pronto, quando a Adorável foi convidada para tocar em uma feira de selos em São Paulo e acabou não conseguindo participar devido à ausência de um baterista. Tempos depois, um novo contato foi feito entre eles, possibilitando uma fase de grande reconhecimento para a banda.
“Eu, pelo menos, fiquei muito feliz porque, queira ou não queira, eu sempre gostei de bandas da Balaclava mesmo antes de eu saber que a Balaclava era a Balaclava”, diz Marlon. “Eu gosto de Terno Rei faz muito tempo e, pra mim, o nosso álbum de 2018 teve uma referência muito forte deles. Até ‘Crescer’ a gente chamava de ‘Terno Rei’ antes, era o apelido da música. Eu também gostava de Raça, Ombu – antes de saber que tinha um castings e as coisas, eu já gostava deles. Aí depois descobri, fui entendendo. Mas a gente nunca teve um contato de fato. Eu produzi alguns shows da Terno Rei aqui em Blumenau, outras bandas tipo Raça também, pelo Coletivo Chuva [n.e: coletivo criado por Marlon junto com Pagú Corrêa], mas a gente nunca teve contato com o Dotta ou com o Farah [n.e: Fernando Dotta e Rafael Farah, responsáveis pela Balaclava Records]. Eu acho que eles sabiam que a gente existia, a gente – óbvio, também sabia deles, mas nunca rolou nada, não tocamos em nenhum evento deles nem nada assim. E aí, aleatoriamente, eles chamam a gente pra tocar nessa feira, do nada mesmo, e a gente fica até meio bolado de não tocar, porque ficou aquilo: ‘pô, podia até rolar alguma coisa’, sabe? Eles ver nosso show e gostar, enfim. Mas não aconteceu. Só salvei o contato do Dotta e pronto. E aí, quando tinha terminado o álbum, mandando aí pra galera ouvir pra mixar e tal, mandamos para um cara que a gente até foi gravar um single com ele lá em São Paulo, que é o Roberto Kramer, e a gente queria ver pra ele mixar e tal. A gente acabou não optando por ele, mas eu acabei mandando essas demos. E, depois, coincidência ou não, vem o Dotta falar comigo no WhatsApp, perguntando tipo: ‘ah, vi que vocês tão lançando um álbum novo, que tão com ele praticamente pronto’. Bom, não sei onde ele conseguiu a informação – não tô dizendo nada, né? – mas ali ele pede as demos e tal, a gente manda e ele faz o convite pra participar do selo. E aí a gente aceita e é meio que assim, meio que do nada: o cara vem, faz o convite, a gente aceita e aí começa já lançando singles, abrindo pro DIIV. Logo que a gente lança o álbum, o Dotta faz essa chamada conosco aqui em casa e a gente fica sabendo que vai abrir pro DIIV! E foi uma felicidade bem grande pra gente – uma responsa também, né? Porque, porra, a gente não tocava fazia quatro, cinco anos, sei lá. E, do nada, um dos primeiros shows nossos é abrindo pro DIIV, uma banda que era mó referência pra gente, que todo mundo já ouve há eras. São algumas referências em comum que a gente tem, né? E acho que DIIV todo mundo tinha umas músicas que gostava, então é B.O! É responsa. Então a gente já correu pra conseguir outros shows, fazer um aquecimento em Blumenau, Joinville, pra não chegar e de cara já tocar em São Paulo num puta palco. Mas, enfim, deu tudo certo e foi um rolezão, foi bem divertido.”
“Tem seus lados bons e ruins, né?”, pondera Gabrielle. “É muito bom estar se sentindo mais relevante pra imprensa, gente chamando a gente pra show, coisas assim. Mas, ao mesmo tempo, é uma droga ficar vendo comentário dizendo: ‘ai, vocês são muito mais do mesmo da Balaclava’. Eu fico braba, eu fico braba. Enfim, e dos lados bons também é como se fosse uma validação do teu trabalho, né cara? Então as pessoas começam a levar a gente mais a sério, etc.”
“Tudo vem num pacote, né? Eu acho”, concorda Marlon. “A gente tá chegando em lugares que eu acho que a gente não chegaria provavelmente. Um dos exemplos que eu dou tem, obviamente, o DIIV, mas esse show do Sesc: foi total ponto da Balaclava ter conseguido o contato lá e conseguido colocar a gente. E claro: a gente fez um show muito legal e conseguimos fazer o Sesc lotar lá, vender os ingressos. Porque se chegasse lá e desse 50 pessoas, também não ia adiantar muito a Balaclava ter nos ajudado. Então eu acho que foi um rolê super interessante tanto pra gente quanto pro Sesc e pra Balaclava.”

Gravado e produzido no quarto do Marlon, sonhos que nunca morrem não teve, devido às restrições da pandemia, o mesmo processo de composição em grupo que aconteceu em O Que Existe Dentro de Mim, sendo a construção das canções e sonoridades centralizada no trabalho de produção do Marlon e nas letras de Gabrielle. Porém, o formato de criação coletiva é algo que a banda pretende retomar em trabalhos futuros. “É isso que a gente quer voltar a fazer agora com o material novo, fazer no ensaio. Claro, o melhor dos mundos é o quê? É um misto dos dois, né? Tu vai, grava uma demozinha lá, aí no ensaio tu vai tocar diferente. ‘Puta! Tive uma ideia: essa parte que tava legal, podemos alongar’. Tu vai lá e joga de novo, faz esse vai e vem que é muito mais legal que tu só ficar na frente do computador programando bateria. Ali não, ali é: ‘tive essa ideia de batera! Ô, batera: faz assim, assado’ e ele já pega e faz, as vezes faz um pouquinho diferente e fica mais legal do que tu tinha pensado, sabe? Eu não tenho cabeça pra ficar esquematizando tudo, então é muito legal esses happy mistakes que rolam nos nossos ensaios”, defende Marlon. “Sem contar que, por exemplo, o Marlon traz uma linha de guitarra aqui, aí eu fico fazendo base enquanto ele faz outra coisa, mas daí eu posso improvisar já em cima da base e assim vai acrescentando mais”, conclui Protski.
Além de uma volta ao trabalho coletivo, a Adorável trabalha para ter um futuro mais profissional como banda, onde as responsabilidades possam ser organizadas por mais pessoas – o que descarregaria Marlon das funções que ele acumula dentro do grupo. “Eu gosto de fazer, mas eu entendo as minhas limitações. E eu sei que o que a gente precisa – o que a gente quer e precisa – é mais do que eu consigo dar agora. Então a gente tem que entender. E eu quero também que outras pessoas possam agregar, que tenha também talvez um produtor de fora, com uma visão de fora da banda. Porque, às vezes, participando do projeto, você fica muito viciado, e acho muito legal essa visão de fora. E é isso que a gente quer: a gente quer ajuda”, defende ele.
Porém, para a felicidade de quem gosta da música da banda, esse caminho de profissionalização é guiado principalmente através do som. Quando perguntei para eles sobre qual futuro eles têm em mente agora, Marlon responde que “pra mim, é conseguir primeiro fazer um processo de criação mais legal, aquele do ensaio e tudo mais. E, segundo, é gravar um material foda pra caralho, pra gravar o melhor álbum do Brasil – é isso. Podem rir, eu tô falando sério: é pra gravar uma parada foda pra caralho, que a gente goste, independente do que vem a ser no final das contas. E fazer o lançamento junto com a Balaclava, enfim, jogar no mundo. Porque eu acredito que, não adianta, se o material é foda, se o material é bom, as coisas vão acontecer, as pessoas certas vão se interessando, você vai recebendo os convites e as coisas vão. Claro, você tem que trabalhar junto e tal, mas eu acho que o mais importante é fazer uma música foda, não adianta.”
“Porque no final é isso que importa: é uma música boa, é um show legal, um show que engaje com as pessoas ali”, continua ele. “Nessa questão do show, eu acho que a gente melhorou muito! Eu não tenho mais medo de ver stories, porque antes tinha show que era foda. Às vezes, a gente não conseguia equalizar direito as coisas. Hoje eu vejo, que nem o show de Floripa aí, os stories que eu vi, eu fiquei: ‘cara, ficou daora pra caralho! Ficou muito bom!’, fiquei bem feliz mesmo. E acho que foi uma puta evolução mesmo. Claro, compramos equipamentos novos, a gente investiu bastante com VS, com retorno pra ouvido, justamente porque um problema que a gente tinha, e era muito foda, é microfonia. Toda vez que a gente tentava ligar reverb no vocal, fazer as coisas, dava microfonia, daí pegava junto som da bateria, era uma desgraça. Com o retorno sem fio, cara! A gente demora pra montar – é até o que eu falei lá no dia: a gente demora pra montar, mas pra passar é rápido. A gente passa uma música, regula um volume ou outro ali e o som tá pronto já. Mas isso foi o quê: muita pesquisa, muito teste, muito ensaio – porque a gente fez ensaio pra caralho pra conseguir tirar as músicas, pra ver os efeitos, pra ver como é que ficava. Ainda tamo melhorando mas, da mesma forma que a gente reconhece que ainda tem pontos pra melhorar, a gente também tem que se dar ao luxo de dar um tapinha nas costas e ver da onde é que a gente saiu, tá ligado? Acho que melhorou pra caralho.”
“Porque eu sinto que, às vezes, eu acho que uma coisa que pega, que a gente fica um pouco no quase por uns aspectos de limitação de orçamento mesmo, de produção. Então, pô, eu queria nos dar essa chance de gravar um álbum bem gravado, sabe? Ter um negócio bem mixado, pra pelo menos dizer: esse aí tá do caralho! Não que a gente não goste dos outros, mas a gente entende que o lo-fizinho ali, pra muitas pessoas, é uma barreira, e eu entendo que a gente não quer ficar com o mesmo público, a gente quer expandir, entendeu? A gente quer mais”, conclui.
E mesmo com esse objetivo delineado no horizonte, com cada vez mais recursos para se profissionalizar e alcançar os resultados que desejam como banda, eles ainda fazem tudo com muito gosto pelo trabalho. “Vai parecer clichê, mas eu sinto que se eu pudesse dizer alguma coisa pra qualquer artista, ou alguém que queira fazer a própria música, ou qualquer coisa pra qualquer pessoa: faz o que tu gosta, porque tu não consegue ir muito longe mentindo, sabe?”, diz Gabrielle. “Siga sua verdade!”, concorda Protski.
E se isso pareceu um clichê, não dá pra negar que ele é adorável.



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