O Curiosólogo

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Skrotes: groovando contra a maré

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Fotos: Felipe Maciel

Com mais de 15 anos de existência, o trio instrumental florianopolitano conta para O Curiosólogo as histórias de sua carreira, seus álbuns, projetos, shows, turnês e outros acontecimentos importantes dessa trajetória.

Por: Renan Bernardi

Atualizado pela última vez: 11/03/2025, às 22h56.

Ainda antes de escrever essa matéria sobre a Skrotes, enquanto pensava sobre ela e o texto começava a surgir em minha cabeça, por mais de uma vez me surpreendi ouvindo o tradicional caminhão que vende botijão de gás em Florianópolis passando perto de onde moro e ressoando sua clássica melodia que foi inserida pela banda nos últimos segundos da música “Adogás”, do álbum Nessun Dorma, de 2014.

Poderia ficcionalizar e trazer aqui que a melodia chegou até mim no exato momento em que sento para escrever, o que poderia até ser provável, pois dessa mesma posição onde me encontro já ouvi tantas vezes a melancólica sequência de notas que anuncia a proximidade do veículo nas ruas do bairro. Mas não seria verdade. Eu estaria criando uma coincidência. Então, resolvi criar a relação de outra forma: coloquei “Adogás” para tocar e comecei a escrever.

Se busco apresentar a conexão entre Florianópolis e Skrotes através da melodia do conhecido caminhão de gás da cidade e a referência que dela eles fizeram, faço isso por esse fato trazer entre eles a ligação mais direta: do som, da música. Mas outros paralelos podem ser feitos para apresentar essa relação entre a cidade e a banda criada nela. Uns mais diretos, como o título do último álbum da Skrotes, Matadeiro, lançado em 2024, que traz o nome de uma famosa praia da Ilha de Santa Catarina. Outros de referência mais sutil, como a faixa sete de Nessum Dorma, “Vinicius Demorasse” – piada que funciona muito melhor para quem conhece o sotaque florianopolitano.

Mas além dos paralelos com sua cidade, a história da Skrotes, por mais que muito se relacione com a história da música em Florianópolis, também escapa disso, vai além, busca outros lugares – físicos e sonoros! -, cria uma própria tradição. É uma história de uma banda instrumental original, de propostas criativas em som e além do som: imagem, circulação, relação com os espaços e comunidades. Uma história original que, para minha sorte, começa em Florianópolis – e é por isso que, no dia 11/02/25, eu fui até o De Patta Tatto & Music, no bairro do Campeche, conversar com Chico Abreu (baixista), Guilherme Ledoux (bateria e percussão) e Igor de Patta (tecladista) para poder contá-la da melhor forma possível.

Foto: Felipe Maciel

2009. Taliesyn Rock Bar: o local propício para o surgimento da Skrotes. “A gente tocava na quarta-feira no Taliesyn e rolava esses funkzinho de duas notas pra ficar enchendo linguiça, uns The Meters e tal”, conta Igor De Patta. “O Baga [n.e: Adriano “Baga” Rotini, músico florianopolitano] é que montou a banda, a gente fez umas jams, começou a ficar legal, começou a encher, era diferente. E aí ele foi pra Itália, saiu do Brasil Papaya e do Skrotes, né? O Skrotes na época era bem underground. Aí ele foi pra Itália e o Chico apareceu”, complementa Guilherme Ledoux.

“O bicho saiu, aí eu lembro da gente tentando fazer nós dois, com eu fazendo o baixo com a mão esquerda. Só que daí, sei lá, o negócio não tava ficando legal, era muita coisa, a gente precisava de um baixista pra ficar massa mesmo, né? Daí foi meio que junto: acho que os dois pensaram juntos no Chico”, diz Igor. “Deu o som, aí foi que formou o som, essa sonoridade que o pessoal curte”, completa, novamente, Guilherme.

Os três músicos, que já naquela época eram reconhecidos na cena musical local, criam então a formação oficial d’Os The Skrotes – como Robson Rebello, um dos donos do Taliesyn, primeiro chamou a banda.

Depois, já sem “Os The” na frente do nome, a banda vai estabelecendo seu espaço e sonoridade ao longo das apresentações no Taliesyn e outros bares de Florianópolis. Logo, um acaso proporciona a primeira publicação do som da banda – e já em grande estilo: na trilha sonora da série documental Ilha 70, produzida pela Vinil Filmes e transmitida pela RBS local. “A gente tinha tocado no Blues Velvet da Pedro Ivo [n.e: casa de show de Florianópolis que já funcionou em diferentes endereços] – e foi o Alan [n.e: Alan Stone Langdon, documentarista e artista plástico] que filmou?”, pergunta Chico para Ledoux, que responde: “É, aí tinha que fazer uma produção. Porque, na real, eu queria fazer um vídeo, um teaser assim. Aí chamamos o Alan e ele fez captação de áudio e vídeo – e ficou bom! Aquele zoomzinho deu conta. E, na real, a Vinil tinha chamado outro pra fazer a trilha, só que aí o Marko [n.e: Marko Martinz, diretor da Vinil Filmes] foi lá visitar o Alan, ouviu o material e falou: ‘não, é isso aqui!’.”

“De uma apresentação ao vivo, isso aí acabou na RBS”, comenta Chico.

Chico Abreu. Foto: Felipe Maciel

Mas, para além do acaso, nesse período a banda já estava preparando uma apresentação formal de seu som. Se a série estreou em 2010, logo em 2011 a Skrotes já lança um EP e, em 2012, um álbum – ambos homônimos. “É que, na verdade, a gente gravou 10 músicas e aí acabou virando um de quatro e um de seis.”, explica Chico.

Gravadas por Alegre Corrêa em seu estúdio no Campeche, essas músicas já apresentam a sonoridade diversificada que ficou característica da Skrotes, onde os riffs seguem um ao outro de maneira ruptiva, com momentos agressivos postos em sequência de grooves funkeados. Timbres emulam e fundem distorção, rock progressivo e música brega. Os tempos ímpares testam todo o seu possível balanço – e têm ótimos resultados. Tudo isso têm ótimos resultados.

Não só a proposta do som da banda propunha algo novo, mas também os formatos com que eles trabalharam na divulgação de seu trabalho e imagem. Chico é quem conta como foi feito o lançamento de um deles: o álbum homônimo de seis músicas. “O Isaac Varzim tava querendo lançar um selo aqui, o Zimmer e o Varzim [n.e: ambos produtores e músicos locais], que era o SIC Music. Eles tavam numa pegada de fazer – começando mais um lance de internet, não tinha plataforma de streaming ainda – mas a ideia já não era prensar um disco pra tu botar no CD Player, era tu ter um código que tu fosse lá e baixasse MP3, que era assim que a galera ouvia música. Aí era uma revista que eles fizeram, com ilustração, escolhiam um ilustrador pra fazer. No nosso caso foi a Balaclava que fez, que trabalhou mais com colagens do que com ilustração. E aí era isso: era essa revista e, na revista vinha o acesso ao site, não era nem QR Code ainda, acho que era o site e uma senha pra você entrar lá e baixar o bagulho.”

Primeiro e homônimo álbum da Skrotes, lançado em 2012.

É nesses primeiros anos de atividade que a banda se aproxima de Gustavo Dogo, também conhecido como Dog, Cachorro e “empresário de sucesso”, como brinca Ledoux, importante personagem para a história da banda.

“Era um broder que foi nosso produtor aí quase uns 10 anos”, explica Chico. “Ele era sócio da Vinil Filmes, aí ele trabalhou na produção do Ilha 70 lá, a gente se aproximou durante esse processo, acabou virando amigo e virou o produtor da banda.”

Ledoux, que conhecia Dogo há mais tempo, conta a história de maneira mais debochada. “Vou explicar pra vocês como começou: a minha ex tinha um coletivo, Abayomi, da UFSC [n.e: Universidade Federal de Santa Catarina]. E a UFSC era um epicentro cultural da época, né? Época do Lula, as universidades bombando. E aí um dia rolou uma festa, lembro até o nome – posso me sabotar, mas era Circo Louco. Aí as meninas ficaram: ‘ah, chama os Skrotes que eles têm bastante público e cobram só 300 pila’. Só que eles não sabiam que eu era parceiro dela, aí foi ela que chegou: ‘vocês são muito laranjão, cara! Tocando direto aí por 100 conto cada e levando público’. Aí veio a ideia de botar um empresário de sucesso, alguém que fosse do ramo.”

Trabalhando a produção executiva, audiovisual e promocional da banda, essa parceria entre o grupo e o produtor é que possibilita parte dos acontecimentos que narramos por aqui. Dogo, por exemplo, foi também um dos responsáveis pelo clipe de “Baixa Ajuda” junto com Che Lucon, e também por um outro especial feito para a RBS nesse período, onde a banda tocou ao vivo no Palácio Cruz e Sousa, um dos prédios históricos mais importantes da cidade. Além de atuar com a Skrotes em apresentações e turnês pelo Brasil e exterior até o término da banda. Mas, calma! Vamos com calma.

O álbum Nessun Dorma, do qual a faixa “Baixa Ajuda” é justamente o primeiro single, foi lançado em 2014 depois de uma campanha de crowdfunding.  As gravações aconteceram no estúdio Handmade, no bairro Rio Tavares, onde atuavam os produtores Beto Fonseca e Julio Lemos.

Dessas mesmas gravações, surgiu ainda um EP que foi lançado ainda em 2013 com o nome de Deboche Ñ É Crime, onde a banda apresenta versões skrotianas de Black Sabbath, Sepultura, Stevie Wonder e Tom Jobim.

Mesmo com essa essência literalmente debochada, esses trabalhos mostram o refinamento da banda e a profunda conexão entre os músicos, que gravaram toda a base instrumental ao vivo. “Pra mim, ali no Nessun Dorma já começa a vir uma coisa mais de melodia, do clássico, um pouco mais de contundência ali, a gente já começa a ficar um pouco mais dramático. Até ali, pra mim, é mais yeahh!”, comenta De Patta.

Primeiro álbum lançado em CD e vinil, Nessun Dorma traz em seu conceito visual referências à família de Igor. Desde o título, referência à uma cantiga italiana que seu pai cantava pra ele dormir, até a capa, cuja foto que a estampa é de sua avó.

Nessun Dorma, álbum lançado pela Skrotes em 2014.

Já em 2016, um convite do CIC (Centro Integrado de Cultura) para a segunda edição do projeto Cinema Ao Vivo cria um ato que, até hoje, faz parte do calendário da Skrotes: a apresentação do filme Nosferatu, lançado em 1922por F. W. Murnau, com uma trilha sonora original da banda.

“Cara, a gente ensaiou 40 dias! Ininterruptos”, conta Ledoux. “Todos os dias: doente, feliz, triste, vagabundo. Todo dia. Acho que foi o trampo mais imersão assim, né? De todos.”

Mas o trabalho rendeu, estando presente em todos os anos em que a banda esteve ativa. “A gente tem feito pelo menos uma temporada por ano”, conta Chico. “Teve ano que fez duas, teve ano que a FCC [n.e: Fundação Catarinense de Cultura] nos levou pra outras cidades também. Mas a estrutura é a mesma desde a primeira, e aí algumas coisas foram se adaptando. Umas que a galera não lembrava, umas que a pessoa achou um jeito mais legal de fazer.”

Uma das faixas compostas para a trilha sonora do filme acaba virando uma música presente no álbum Tropical Mojo, lançado pela banda em 2017: justamente “Nosferatu”. “Aquela ali é uma compilação, é a música inteira”, explica De Patta. “Porque o que que fiz: essa música, lógico, ali durante o Nosferatu a gente tava numa onda muito chopiniana, daí eu queria muito fazer uma música com a banda que não tivesse sintetizadores, que fosse pianão mesmo, bem cru, bem de verdade, sabe? E tinha que ter pelo menos 10 minutos, essas peças clássicas mesmo. Pra mim tem muito essa sensação. Agora não me lembro se veio da música pro filme ou se do filme pra música. Eu acho que a maioria já tava lá. Mas foi tudo mais ou menos junto, cara! Porque eu fazia ali um trecho, compunha pro filme alguma coisa, eu tava tendo as duas ideias junto.”

Igor De Patta. Foto: Felipe Maciel

Antes mesmo do lançamento do já mencionado Tropical Mojo, 2017 teve outro acontecimento marcante para a carreira da Skrotes: o convite para participar do Programa Instrumental Sesc Brasil, em São Paulo.

Referência na divulgação da música instrumental brasileira, a participação no programa pode ser considerado um demarcador do reconhecimento da banda no eixo central do Brasil, também reforçado por apresentações na Casa das Caldeiras, no Sesc Pompéia, na Virada Cultural, na Fundação Progresso, Goiânia Noise Festival e outros . Por exemplo, em entrevista para o Programa Passagem de Som – também parte do mesmo projeto, podemos ver os membros da banda andando pela capital paulista e encontrando seus CDs e LPs em lojas conceituadas da cidade.

Mas é mesmo em Florianópolis que um personagem de outra cena musical – a de Porto Alegre, vai se unir aos Skrotes para o próximo projeto da banda. Edu K, conhecido pela banda De Falla e outros projetos, morava na cidade na época e foi convidado por Gustavo Dogo para a produção de Tropical Mojo, álbum que foi gravado nos estúdios da Magic Place, na capital catarinense.

“Ah, ele é muito doido, cara! Foi impressionante”, conta Igor. “Quando o Chico começou a falar de produtor e tal, na hora torci o nariz, falei: ‘para! o cara meter a mão, querer mudar nossas parada, tá maluco!’. Mas, pô: esse aí é muito massa. E foi um prazer muito massa, é muito massa ver alguém produzindo também, botando a mão na tua música. Ali caiu por terra o preconceito todo e fiquei mais fã do bicho. […] E ele é bem desses que dá pra fazer um documentário tranquilo, porque ele é todo excêntrico no modo de conduzir. Tinha um cara ali que, não sei porquê, ele não suportou aquele menino.”

“Eu sei porquê”, respondeu de imediato o Ledoux. “O cara tinha uma ideia bem construída na cabeça e o bicho vinha com um conceito cansado, de captação tradicional e vinha: ‘ô, vai botar o microfone assim? Que tal mais assim?’, aí o bicho só olhava. Uma, duas vezes, até que ele falou: ‘mano, tu és um roadie aqui’ – sei lá qual era a função do bicho – ‘tu não sabe de produção, cara! Se eu quiser tua opinião, eu te chamo!’, aí o cara nem foi mais.”

A produção com Edu K incorporou ao som da Skrotes muitas camadas de overdubs, programações, adição de outros instrumentos e uma maior atenção às sonoridades brasileiras que já estavam presentes no trabalho da banda. Tudo isso sem deixar de trazer todo peso e as influências de rock e metal que, na junção de todos os elementos, constroem certa energia caótica que é bem marcante na sonoridade do grupo até aqui.

Tropical Mojo, álbum lançado em 2017.

Ainda em 2017, a banda parte para sua primeira turnê internacional. 10 shows na Inglaterra: três em Londres e sete em Lancaster, como atração em diversos palcos do Lancaster Music Festival.

A passagem do grupo pela Europa é retratada no filme God Save The Skrotes, editado e, em boa parte, também filmado por Guilherme Ledoux. De um registro amigável da passagem da banda pela Inglaterra, o documentário torna-se melancólico no seu final, onde a narração de diretor e baterista diz: “meses após a chegada em Floripa, a banda termina.”

Mas ainda antes do fim, em uma participação da Skrotes no Estúdio Unika, a banda toca a faixa “Benoni”, com a participação percussionista Diogo Costa, e a apresenta como single de um novo álbum que estaria em produção, mostrando que esse término foi um tanto abrupto, deixando resquícios criativos que poderiam ter sido continuados.

Guilherme Ledoux. Foto: Felipe Maciel

Fato é que a banda realmente encerra as atividades em 2018.  “A vida vai passando, né?”, argumenta Ledoux. “É aqui assim: na minha visão, a gente fez muito no começo da banda, a gente queimou até algumas fichas, de estar muito presente. Às vezes, se recolher um pouco pode ser bom. Convivência e lances pessoais, os filhos vão nascendo, locurage”, conclui.

Mas também é fato que, já em 2021, eles voltam a se reunir e planejar um retorno, que viria em 2022 – e em formato celebrativo, tanto do próprio retorno, quanto da continuidade da banda e de uma história que estava completando 10 anos. Chico é quem conta: “A gente voltou e queria, sei lá, uma desculpa pra voltar, fazer alguma coisa diferente e aí pensamos em fazer uma ocupação no CIC. A gente pensou: ‘vamo fazer um show no teatro? Vamo’, ‘ah, podemos aproveitar e fazer um Nosferatu no cinema!’, ‘tá, já que já vamo fazer isso, vamos fazer uma exposição então no MIS [n.e: Museu da Imagem e do Som]’.

“Nisso, a Maria [n.e: produtora responsável pela GinGa Criativa, pelo Projeto Oia, pela Skrotes e também pelo meio de campo que possibilitou essa entrevista. Abraço, Maria!] virou nossa produtora, abraçou a ideia e seguimos em contato com o Luiz Pegoraro, que era de um estúdio de design, que era o FatFace. E aí o bicho: ‘bora fazer essa!’ e ele já tinha o know-how de trabalhar com exposição, fora a parte gráfica.”

“Quando eu pensei nisso, foi mais no sentido de fazer um caô aí só pra ter essa história toda. De ser tipo: a gente imprime umas foto, bota na parede, matéria de jornal e tal. Só que aí, com a entrada do Luis, que como tinha essa experiência, começou a pensar em coisa de instalação. Aí tem um vídeo da banda em São Bento do Sul, depois de um show, a gente procurando um bar pra beber e o Cachorro começou a nos filmar e depois ele fez um clipe daquilo: nós doidão num boteco, o Ledoux comendo um rollmops. Aí, nessa instalação, o bicho pegou e fez o bar – esse bar lá! Ele pegou, pintou a fachada do bar, botou um balcão, botou o rollmops, sabe? Uma mesa de sinuca. E a gente conseguiu trazer o dono do boteco! O dono do boteco veio pra exposição.” conclui Chico.

“Foi irado, velho! Foi um dos projetos mais extravagantes. Foi muito bonito, emocionante, todo mundo que entrou na parada foi determinante – a equipe, né? – Chico, Maria e Pegoraro, incrível! Eu, sinceramente, não tinha noção do que ia ser aquilo ali, parecia que ia ser um negócio legal e tal, mas surpreendeu”, comenta Ledoux.

Foto: Felipe Maciel

Um dos shows realizados na ocupação do CIC trouxe uma proposta que já passava pela cabeça da banda há um tempo: tocar no formato acústico.

Também nesse formato, em 2022 a banda acompanhou o músico Diego Raimundo em uma live realizada em homenagem à Luiz Henrique Rosa, um dos mais importantes nomes da música catarinense que, inclusive, foi personagem da primeira matéria d’O Curiosólogo.

Seguindo essa ideia, já em 2023, para uma entrevista no Programa Papo Com Cachaça, Ledoux falava que o próximo trabalho da banda teria “uma pegada mais acústica”, algo que acabou não acontecendo assim ao pé da letra, mas cuja intenção mais orgânica e menos distorcida do som pode ser percebida em Matadeiro, o álbum lançado em 2024. 

Além de diminuir as distorções, Matadeiro apresenta um formato menos frenético em suas mudanças rítmicas. “A fórmula tá ali: tem músicas com três, quatro partes, isso continua”, argumenta Ledoux. “Mas meio que a gente tentou groovar mais nesse, de fazer as ideias um pouco mais estendidas, porque tava muito curto tudo. Então a gente tentou repetir as formas, coisas que a gente não fazia, repetir a forma harmônica duas vezes.”

Mas além da experiência sensível, os teclados que inspiraram a sonoridade de Matadeiro também devem à experiência física de seu tecladista. “Depois disso, eu fiquei com problema na mão e eu comecei a ter uns teclados analógicos, que era bonito – sob a minha ótica, né? – e eu tava com um monte de artrose, hérnia e tal, então ficou bem pesado isso aí. E, ao mesmo tempo, veio a calhar de que os bass station, uns teclados mais robusto, era gostoso de ouvir, deixava bem rhodes mesmo. Então eu achei mais bonito. Fiz um negócio pra tocar menos também, né? Exigir menos, e veio a calhar de ser uma coisa tão bonita”, conclui ele.

Gravado no Ouié Studio, no bairro da Armação, e produzido por Paulo Costa Franco, também proprietário do local, Matadeiro traz composições que já vinham sendo trabalhadas desde muito antes do hiato da banda. “Piracema Groove”, por exemplo, é dos primeiros anos da Skrotes. “Cão Calvário” já estava presente no show de retorno no CIC. Por outro lado, “Azyminha” e “Sieben Zu Eins War Nicht Genug” (que, em tradução livre do alemão, seria algo como: “sete a um foi pouco”) foram criadas especialmente para o álbum.

Trabalhar com Paulo no Ouié era uma ideia antiga dos membros que, agora realizada, parece coroar o retorno da banda e atualizar seu trabalho e posição no cenário. “Foi bem legal, o Paulo é um cara super”, comenta Ledoux. “Ele tem uma competência especializada ali, sabe? Inclusive ele interfere na produção: ‘não, não! Isso aqui pera aí!’. Mas ele compra as ideias! Teve uma música que eu falei: ‘ó, Paulo: quero usar só uma percussão louca aqui’, aí peguei uma grelha de churrasco, ferros. E, ao invés dele falar: ‘porra, bota uma conga aí!’, sei lá, ele falou: ‘bah, mano! Massa!’, ele comprou a viagem, entrou parceiro.”

“Foi muito bom, mas foi difícil”, disse Igor. “Pô, eu tenho que contar uma parada: pra mim, foi muito louco porque eu tava pra operar minha cervical. Então, cara, foi uma loucura de gravar! Tava tomando morfina e com muita dor. Às vezes dava vontade de desistir, porque parece que não fica bom. Eu acho que eu termino de gravar uma semana antes, uns quatro dias antes de ir pra cirurgia. E, pra mim, foram importantíssimos esses dias, foi um momento de união foda, porque foi nós três, sabe? Até ficamos ‘ah, vamo chamar um! Vamo chamar outro’ e acabou que, não sei se foi o Chico ou a Maria que falou: ‘não, vamos só os três’ e, realmente, uniu bem.”

Matadeiro, álbum lançado pela Skrotes em 2024.

E os próximos planos da Skrotes? Ledoux responde: “Sobreviver, né? A gente se ausentou do cenário por um período, sem lançar discos foram sete anos. Nesse período, nosso público mudou, porque a maioria tá em outra, a grande maioria. E o cenário da música mudou, então o disco ainda tá num meio termo, acho que a gente não conseguiu encontrar um nicho pra botar nos festivais. Foi lançado e tudo, mas eu acho que a gente tem que entender o mercado um pouco, sabe? Eu pelo menos. Tá diferente, cara. Tanto show quanto mercado em si, que não é mais álbum – e a gente fez um álbum mesmo! Então eu acredito que, com o vinil, pode ser que isso dê uma guinada, que vire um álbum mais cult, vamos dizer. Mas eu ainda não compreendi como é que vai ser o circuito desse álbum, que é super novo, né? A gente tá falando que é do ano passado, mas é do final do ano, então de certa forma esse ano ainda vai ser dele.”

Apesar do tom preocupado da fala – e embora as preocupações sejam críveis e honestas – eu posso dizer que a Skrotes ainda tem muitos outros planos criativos para sua sobrevivência. O álbum, é claro, ainda é novo e tem que ser melhor circulado e reconhecido como um dos grandes lançamentos de 2024. Mas, para sugerir futuros e aguçar ideias, resolvi listar neste fim de texto algumas outras propostas, trazidas pelos próprios membros da Skrotes durante essa entrevista, de projetos para o futuro da banda: um álbum com a gravação da trilha sonora de Nosferatu; um álbum completamente acústico, com composições feitas especialmente para o formato; um álbum cheio de participações especiais, entre as quais eles citam Emilia Carmona e François Muleka, que já tocaram com eles em outras ocasiões (e também já apareceram aqui n’O Curiosólogo – vejam só!); e a regravação da música “Jamming”, de Bob Marley, que meio que já foi rejeitada pelos outros membros na mesma hora.

Enfim, acredito que a Skrotes criará meios para adaptar-se aos novos cenários. Afinal, basta pensar que a existência de um respeitado e original trio instrumental que, em Florianópolis, se mantém relevante e atuante há 15 anos, já denota uma grande capacidade desses caras em encontrar alternativas para sobreviver – groovando contra a maré.

Foto: Felipe Maciel

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