Foto: Gabi Bresola
Documentário lançado pela Ombu Produção parte do assunto do fazer (ou não-fazer) fiado para discutir aspectos de ética, moral, credibilidade, amizade e comunidade no interior de Santa Catarina.
Por Renan Bernardi
Atualizado pela última vez: 18/02/2025, às 17h06.
Nenhum texto é isento dos interesses (ou desinteresses) de quem o escreve. Mas este, definitivamente, está muito longe disso.
Fiado Só Amanhã, curta-metragem lançado em novembro de 2024 pela Ombu Produção – e que agora ganha as páginas d’O Curiosólogo, teve a minha presença desde seu argumento original. E depois no roteiro, na captação de som direto e na composição da trilha sonora original. Além de pitacos em diversas outras partes.
Estive, portanto, constantemente presente na história que agora conto. Mas, é claro, não estive sozinho. É por isso que convidei Gabi Bresola (produtora executiva e assistente de direção), José Barancelli (diretor) e Matheus Francez (de quem também é o argumento original – além de também ter feito captação de som direto e compor, gravar e produzir a trilha sonora original) para conversarmos sobre o nosso filme desde sua concepção, passando por toda produção, o lançamento (ocorrido em Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina) e nossas percepções sobre seus assuntos. Abigail Ferrandin, que fez a direção de fotografia do curta, não pode participar da conversa – mas não deixei de incluí-la e de pedir o seu depoimento sobre o projeto posteriormente.
Para entender a ideia desse filme, é bom contar a forma como ele chegou até mim, ainda em 2021. Melhor do que isso: Matheus Francez, que foi quem teve a ideia, é quem nos conta sobre ela.
“Bom, primeiramente, eu trabalho no comércio, né? Então eu tenho uma vivência diária do fiado. E segundamente, eu frequento muita bodega, então isso também impacta um pouco na minha vivência do negócio. E aí, durante a pandemia, eu vi aquela entrevista do Marcelo Tas com o Clóvis de Barros Filho, onde ele falava sobre confiança e ele citava, digamos assim, um case de quando uma criança vai buscar leite pra vó no comércio e pede para anotar. E, um certo dia, essa criança chega lá e a pessoa diz ‘não, não fazemos mais fiado’, e aí houve uma ruptura de um certo contrato que eles tinham ali, né? E ele diz que, naquele momento, [o comerciante] está dizendo ‘não confiamos mais em você’. A partir disso, eu fiquei pensando – que coisa, né cara? Onde tá escrito esse contrato? Como ele funciona? E com quem ele funciona? A partir de onde essas pessoas, nesses lugares, em vendas menores e informais – informais não, mas vendas que não são atacadas pela burocracia do dia a dia moderno – onde isso bate nas pessoas? E aí eu fui lembrando dessas histórias que eu já ouvia antes, dos comerciantes, ou mesmo do povo na bodega.”
“O povo sempre brinca muito, as placas de fiado são muito presentes no dia a dia dos comércios. Tanto que, quando a gente vê alguém abrindo um comércio, a primeira coisa que o comerciante escuta é alguém falando o seguinte: ‘ah, não vende fiado! O cara ali da banca vendia fiado e se quebrou’. E a partir disso, o fiado existe no imaginário do comerciante, do bodegueiro. E as bodegas em si, elas já têm um certo molejo causado pela bebida alcóolica, pelo consumo, e acaba sendo um ambiente diferente, de certa forma um pouco mais descontraído pra poder falar sobre esses temas […] E aí eu lembro que eu comentei com o Diogo José [n.e: fotógrafo e realizador audiovisual], lá de Chapecó, e, aí sim, a gente conversou – eu e Renan – quando surgiu essa ideia de fazer um projeto mesmo pra edital”.
O projeto inicial, com outra equipe técnica escalada e com um norteamento muito voltado para as questões éticas e morais do fiado, foi inscrito no edital de 2021 do Prêmio Catarinense de Cinema (que possui a estranha sigla: PCC) e acabou não sendo selecionado na ocasião.
Apesar disso, o fato do PCC daquele ano incluir competições de projetos sendo selecionados através de disputas entre regiões do Estado foi um marco inédito e importantíssimo para o desenvolvimento do audiovisual catarinense fora do eixo da capital. Gabi Bresola, que na época era Diretora de Acervo e de Comunicação e Difusão da Cinemateca Catarinense, articulava essa retomada junto às diretorias regionais. Na entrevista, ela nos conta que “foi a marca muito forte de um momento político do audiovisual, em que a gente debatia uma produção regionalista/uma produção de cinema fora da capital: são duas coisas, pra mim, diferentes, né? A gente entende como diferente. Eu lembro muito de diálogos que a gente tinha, com Matheus também, de artistas que estavam produzindo. A gente tava circulando, eu já tinha circulado com duas exposições, e brigava na capital pela regionalização. Foi quando começou a ter a divisão real assim e a percepção de que existia produção fora do Sul Catarinense e da capital.”
“A briga começou antes, com uma chapa que era da Carol Marins, que eu fazia parte. Fizemos uma caminhada pelo Estado visitando algumas cidades tentando mapear quem estava produzindo em outras regiões. Na nossa gestão, nós criamos as diretorias regionais, que aí no Oeste tinha a Ilka [Goldschmidt] e o Miro [Cassemiro Vitorino. n.e: Casal fundador da Margot Filmes, de Chapecó], teve a Cinelo [Associação de Cinema e Vídeo de Chapecó e Região] que também encabeçou muito isso no Oeste. Depois, no Sul, tinha o Rodrigo Falk Brum. Balneário Camboriú tava a mil por hora também. Então tem a ver com um movimento político que objetivou isso, nasceu de uma discussão mesmo e principalmente encabeçada, em Florianópolis, por pessoas que eram de outras regiões e que tiveram que se deslocar pra capital pra isso. […] era um esforço muito massa que tinha rolado, de fazer com que o dinheiro fosse distribuído, numa tentativa de dizer: ideias e projetos existem, vontade de profissionalizar existe, o que falta é distribuição de recurso.”

Apesar de não fazer parte da equipe desse primeiro projeto, Gabi leu e comentou sobre ele a pedido do Matheus para nos ajudar na sua construção. Desse de 2021 para o de 2024 (já com Gabi na produção), houveram diversas alterações no que viria a ser o “Fiado Só Amanhã”, desde os locais de gravação (que antes eram em Concórdia e Ipira, e acabou sendo em Concórdia e Joaçaba – todas cidades do Oeste Catarinense) até o time que o realizou. Mas, além disso, a produtora também ressalta outros pontos que se diferenciam nesses dois projetos, colocando a sua própria experiência nos ambientes estudados no curta como fator determinante para as mudanças. “Eu lembro que eu li o projeto e eu achei extremamente filosófico e muito bonito, muito bem escrito no sentido de refletir sobre aquilo, sobre a ética – era principalmente sobre a ética, né? E sobre confiança. E eu lembro que, nesse meio tempo, eu fui à Ipira e conheci o Bar do Kardoso e eu travei uma discussão lá. E eu lembro de acender um cigarro e um cara chegar pra mim e falar: ‘nossa, uma mulher fumando! Que feio!’ e eu fiquei muito irritada. Olhei pra ele e falei: ‘feio é você!’, e eu me senti muito mal por responder tão secamente e tão rapidamente a algo desse tipo, fui super grosseira. E aí eu comecei a pensar como eu me sentia como mulher numa bodega, sabe? Na primeira versão, o projeto só tinha uma visão de homens para homens, então ocultava completamente as mulheres do rolê. Isso foi uma coisa bem forte, eu acho. Porque se existia uma bodega, significa que existia uma mulher limpando, que tinha alguma mulher cuidando, que tinha alguma mulher por trás, enfim – e a ausência das mulheres na bodega, que isso é o que mais me pega. Então eu acho que o que mais me pegou na primeira vez que eu vi o projeto foi ele não trazer algumas problemáticas que já eram discutidas naquele momento contemporâneo. Eu lembro de ter comentado sobre isso e acho que isso foi o que mudou. Tanto que depois eu lembro também de uma discussão com Zé [José Barancelli], do tipo: quem que a gente vai chamar pra fotografia? E aí a gente fez uma série de levantamento de nomes que nunca tinham dirigido foto na vida, e aí eu meio que peitei a Biga [Abigail Ferrandin] nessa função, porque se é pra pegar um homem que nunca fez, vamos pegar a Biga então, sabe? Porque a ideia de fazer pela primeira vez era comum a todos, então vamos tentar pensar o olho desse filme, que é a câmera, a partir desse olho de uma mulher. Eu acho que foi isso que mudou radicalmente, na minha cabeça, porque isso automaticamente trouxe uma série de escolhas.”
“E eu acho que uma coisa que não tava tão presente antes e que depois se construiu no andar da carruagem foi o senso de comunidade que a bodega traz. A paixão dos homens com os homens. E isso também é um aspecto que pode ser visto por uma ótica machista, mas que ao mesmo tempo é super bonito também, porque é no bar onde homens choram, no bar os caras contam os seus segredos, é no bar onde os homens fofocam! Que é uma coisa muito vista como uma tarefa ou uma atividade das mulheres. Então, de todas as coisas, eu acho que foi isso. E a segunda é que, tecnicamente, vocês iam chamar pessoas que eram profissionais – no sentido de já trabalhar há muito tempo com isso, e quando a gente escolhe fazer o filme com pessoas que são profissionais no sentido intelectual, mas não na prática, no sentido de: Zé nunca tinha dirigido um filme com equipe; Biga nunca tinha dirigido foto; Matheus nunca tinha feito captação de som; Renan também, né? Coisas desse tipo acho que tornaram a nossa construção muito bonita e muito diferente do que seria uma equipe profissional, que chegaria falando rapidamente sobre câmera, aspecto e tal. Eu acho que essa – não é insegurança, não foi insegurança – acho que é a ideia de tipo: gente, vamo construir esse filme junto! Eu acho que trouxe uma coletividade, esse senso de comunidade pra produção – que era também o assunto do filme! Sabe? Porque fiado é confiança. Quando a gente entrega a câmera, um equipamento na mão de alguém, é também confiança. Nós confiamos uns nos outros desde quando vocês entregaram o projeto. A gente tramou um espaço de confiança, então acho que a produção virou a bodega e a bodega se traduziu na produção. Eu acho que essas duas questões pra mim foram as mais fortes do projeto anterior para o projeto que se transformou”, finaliza ela.

A ideia de realizar o “Fiado Só Amanhã” retoma em 2024, através do Edital 001/2023 de chamamento público para fomento de ações culturais no município de Joaçaba/Lei Paulo Gustavo, com realização da Ombu Produção (representada por Gabi Bresola). José Barancelli, que nessa ocasião foi convidado para dirigir o curta, é quem conta como isso se deu.
“Esse filme eu já conhecia também do projeto anterior de vocês, que eu acho que o Matheus tinha me mostrado ou me falado – me contado que o projeto tava escrito já. Aqui em Joaçaba também, da mesma forma como Gabi falou antes, a partir dessas lutas pelas políticas públicas das pessoas do interior articulando com a capital, as cidades menores começaram a ter resultados. O Conselho de Cultura aqui de Joaçaba teve um papel muito importante nisso. E uma coisa que a gente sentia falta é que a gente tinha muita ideia, muita produção independente aqui em Joaçaba, mas a gente não tinha dinheiro e a gente não tinha uma formação específica em produção executiva, em interpretação dos projetos, coisas legais mesmo e de como articular com a lei. E isso foi ressurgindo a partir da vinda da Gabi pra cá, o que também profissionalizou isso de muitas maneiras. Quando surgiu esse edital aqui em Joaçaba, nós ficamos ‘vamo escrever?’, mas o quê? ‘ah, eu queria escrever um curta-metragem, mas eu não tenho nada pronto’, não ia dar tempo, né? Aí a Gabi lembrou desse projeto, que já era um projeto que eu gostava muito, era um filme que eu talvez nunca fosse fazer, nunca fosse dirigir, mas era um filme que eu era muito curioso pra saber qual que seria o resultado caso um dia vocês continuassem, se vocês um dia passassem e conseguissem produzir isso. Eu tava muito curioso pra assistir o filme, que era um tema que me interessava, era um lugar que me interessava e tal. E aí foi muito rápido, né? A gente fez um grupinho, mandou mensagem pra vocês, vocês aprovaram, a gente reescreveu o que precisava reescrever. E foi assim os primeiros contatos mais diretos com o filme, com o projeto. A gente mudou algumas coisas que a Gabi já falou, a gente trouxe algumas complexidades além dessas questões que Gabi citou. Porque a bodega, como o Matheus disse – ele falou uma palavra que eu até anotei aqui: molejo, né? Eu traduziria esse molejo como algo que a bodega tem, que é uma camada de proteção muito fina: ela é muito exposta, você chega lá e você sabe que todas as complexidades estão lá quase que sem hipocrisia. E tu sabe que tu vai tá entrando num ambiente em que vai ser contaminado por muita coisa. No texto anterior, ele descrevia um pouco essa coisa romântica da bodega, então a gente articulou também pra que a gente conflitasse determinadas questões e tencionasse umas outras pra que o filme ganhasse um pouco mais em possibilidades.”
Na montagem da equipe para o projeto, a decisão de José ter sido escolhido para dirigir o curta pode ser entendida como uma escolha técnica. Gabi, que além de produtora também já dirigiu outros filmes, nos fala sobre esses aspectos e de como ela busca que a hierarquização das produções seja feita da maneira mais horizontalizada possível. “Tem a ver com a hierarquia também dentro de uma equipe de cinema, que é algo que eu busco há muitos anos já, e Zé é uma pessoa com quem eu gravei o ‘Todo Domingo’, que é um filme que a gente nunca finalizou ainda, mas que buscava isso: desierarquizar as posições de criação. Porque eu assisto há anos, principalmente documentários, produzindo com pessoas que às vezes tão na elétrica, às vezes estão em lugares muito técnicos, e que dão sacadas incríveis para quem está na direção. Então eu acho que a gente tem essa visão de cinema como uma construção coletiva há muito tempo e, na verdade, a escolha de posições é mais por uma questão de escolha de posição mesmo, da gente dividir tarefas. Mas a gente fala ‘nosso filme’ o tempo inteiro e eu entendo assim até agora. Você tava lá no som, mas você tava fazendo pergunta também, né? Matheus também tava, eu tava na assistência de direção, mas eu me meti mil vezes – aparece minha voz no filme! Cada pessoa contribui um pouco, mas precisa ter alguém que une isso e que dá a cartada final.”
“Eu fico pensando num cenário onde a gente chamasse uma equipe de fora. Tecnicamente, o filme poderia ter tido um caminho muito mais, sei lá, talvez tivesse imagens estáveis, seria outra ligação. Mas talvez perdesse uma coisa que é muito importante que é a vivência da bodega, né? Que nós todos somos bodegueiros no sentido de viver isso sempre, então a gente queria que isso acontecesse. E óbvio que eu não tô romantizando uma equipe de cinema quando eu falo em coletividade, porque sem hierarquia as coisas não funcionam. Então, embora a gente tivesse pensando tudo coletivamente, cada um sabia suas tarefas exatamente, por escrito inclusive, impressas! E funcionou porque todo mundo tirou a ideia de protagonista, de autoria e de ego intelectual disso. A nossa ideia era fazer um filme, aí todo mundo dedicou o que podia pra que a coisa acontecesse da melhor maneira. Acho que isso que é o mais bonito, sabe? A gente não tava filmando em 4K, porque não é importante o 4K pra gente, a gente também queria talvez uma sujeira, a gente queria outras coisas. O filme tem um pique muito das coisas acontecendo e acho que é muito a nossa visão do rolê, quando os olhos começam a ficar bêbados, quando as coisas começam a acontecer, quando tudo vira uma grande confusão, mas volta e tem uma reflexão que parece super simples, mas é extremamente filosófica porque é uma fala de alguém que tá na bodega, enfim. Então eu acho que só funcionou como uma equipe coletiva porque a gente abriu mão do ego e das ideias de protagonismo da gente como artista.”
José, defendo (ou ofendendo?) sua posição de diretor, complementa a fala de Gabi: “Eu sempre achei essa coisa do crédito de vaidade do diretor cafoníssima, só acreditei nisso quando eu era criança e só assistia filme de Hollywood, entendeu? Depois que eu comecei a acompanhar produções, eu percebi que isso não existe. Então, é sempre uma construção coletiva. E a real é que eu tava louco pra dirigir um filme. Eu não impus nada, né? Mas quando surgiu a ideia: ‘ah, você pode dirigir? Quer dirigir?’ eu topei na hora, porque é um filme que tem a ver, conversa comigo, conhecia já todo mundo da equipe e sabia que o coletivo era o principal, fazer funcionar o coletivo, fazer com que as coisas funcionassem dessa maneira, dessa forma. E eu fiquei extremamente realizado em toda produção, com a finalização, com a exibição, com o que a gente tá fazendo agora – sempre de forma coletiva e sempre de uma forma muito planificada no sentido das posições. Tem muito a ver, claro, com o meu entendimento de cinema, mas tem muito a ver com como esse filme chegou, que era um filme que caiu para o diretor, coisa que no Brasil acontece menos, né? É mais comum em produção gringa, em que o diretor pega filme dos outros pra dirigir. No Brasil as equipes são mais reduzidas, então o diretor tem o argumento, o diretor co-roteiriza ou às vezes até escreve o roteiro, aí chama a equipe e dirige. E aqui não, eu fui praticamente um diretor convidado a fazer o filme, e eu acho que isso também colaborou muito com a minha percepção que é um filme nosso, um filme coletivo.”
Essa fala do Zé me fez pensar na “terceira coisa” que é a produção desse filme. Veja: historicamente, o cinema de grandes produções conta costumeiramente com diretores convidados, como quando David Lynch foi chamado para dirigir “Duna”, em 1984. O contraponto que José dá é justamente o cinema de autor, mais comum no Brasil: onde o diretor acumula funções para defender uma ideia própria. Em “Fiado Só Amanhã”, nem uma coisa nem outra: nem diretor convidado, nem cinema de autor. Seria então um cinema de autores?

Esse é um bom momento para falar de outra pessoa autora desse filme: Abigail Ferrandin, que assinou a direção de fotografia. Conversando com ela depois da entrevista com o restante da equipe, ela me conta que “apesar de ser uma primeira experiência, o que pode causar muito nervosismo, ansiedade, me senti confortável porque a gente tava muito junto, toda a equipe pegando junto, né? Então, mesmo nos lugares que eu não conhecia, como o Fumo Amarelinho do Nilson [n.e: proprietário do Casa do Fumo Amarelinho, em Concórdia, que foi entrevistado para o curta], foi tranquilo porque o Matheus era super próximo dele, então ficou um ambiente muito entre amigos.”
Sobre o “olhar do filme”, como Gabi sabiamente traduziu a câmera anteriormente, Abigail me fala que essa experiência coletiva a ajudou a imergir nos ambientes que compõem o curta. “Buscando as cenas livres, esses cantos, a bagunça – que são histórias, né? Onde tem mais coisa acumulada, é onde mais tem história, onde mais passou. Em todas as imagens, eu nunca procurei uma imagem limpa, um cenário perfeito. Acho que o perfeito nisso era expor tudo que tinha no lugar, o local que era de utilidade dos bodegueiros: atrás do balcão, essa coisa de participar mesmo da rotina deles. As coisas acontecendo ali onde elas acontecem mesmo.”
Atrás do olhar do filme, uma pessoa segura a câmera. E, essa pessoa sendo uma mulher – e em um filme que se passa em ambientes historicamente machistas – algum desconforto existe, mesmo em uma produção tão amigável. “Apesar de estar ali gravando, tá ali com amigos e tudo, foi duro perceber que esse não seja um lugar que eu seja bem-vinda por ser mulher e que eu me sinta confortável enquanto mulher sozinha. Por conhecer os bodegueiros agora e tal, sim. Mas pensando em outra perspectiva, talvez não seja um lugar muito fácil e acessível para mulheres mesmo. O que é triste, porque é um lugar cheio de história, de afeto também. E é um lugar pra descontrair, pra descansar, um lugar de lazer. Mas eu acho que ele não tem essa mesma função para uma mulher.”
“Também queria falar que, apesar de entender o meu lugar, ou a forma como eu entendi o meu lugar, estar nesses lugares e conhecer as pessoas dessa forma, também tirou o preconceito que eu tinha, que vem também da minha criação religiosa. Então é como descobrir um mundo inteiro novo dentro de um lugar, sabe?”, conclui ela.

Outra aspecto notável que envolve o “Fiado Só Amanhã” é a sua trilha sonora original, composta por mim e por Matheus Francez, sendo o segundo quem, novamente, primeiramente trouxe a ideia ao grupo. “Eu lembro que tinha alguma reunião que a gente fez, acho que foi com a Gabi, uma semana antes ou nessa semana da filmagem com o Nilson, que aí eu já apresentei essa ideia. Eu disse, ó: temos um proto-tema aí pro filme. Mas eu lembro que eu pensei que a gente precisava de um negócio com um refrão forte assim, né? Que pegasse. E eu tenho essa playlist de bregas, esse estudo que eu faço de bregas desde 2018 mais ou menos, que é uma coisa que me atrai bastante, essa linguagem do brega. Eu acho que conecta muito bem a música com o ambiente da bodega em si. É muito rico, né? Culturalmente. E aí, com isso, eu lembro que surgiu o refrão da música primeiro, e aí a partir dali eu comecei a esboçar alguma coisa. Aí teve, é claro, a referência do San Marino, que eu lembro que eu tinha as notas, a sequência harmônica da música, mas eu não conseguia escrever a letra, e com o Renan sempre tem funcionado muito bem assim: eu vou lá, faço, digamos, um solfejo da composição com uma melodia e ele consegue colocar as letras ali e depois a gente vai fazendo acentos.”
Gravada e produzida no Estúdio do Léo, em Chapecó, a canção contou com a participação da cantora Roberta de Razão (que gravou sua parte em Vilha Velha-ES). A decisão de convidá-la para essa participação também se deu em coletivo, mais precisamente durante o jantar após o primeiro dia de gravação, no Bar Zé da Brahma, em Herval d’Oeste, município vizinho de Joaçaba. O ambiente e a decisão são propícios: o bar, por retratar a já citada tradução da produção em bodega – e vice-versa; e Roberta pela sua estética punk-brega que deu a tônica exata que a música-tema do filme precisava.

A equipe do filme fica em maior número conforme a produção avança: Ismael Godoy assina a montagem, a correção de cor e a mixagem de som; Claudia Capitanio (Coko) e Rodolfo Keoma são os responsáveis pelo projeto gráfico; Júlio Gubert fez as legendas; Raça Livre Produções, a acessibilidade; Rudolfo Auffinger, além de ter feito câmera adicional em algumas ocasiões, também representa a Pupilo Filmes, que nos concedeu a tela inflável que possibilitou a exibição do curta em seu lançamento – coisa que merece uma atenção à parte.
Aconteceu nos fundos do Bar Kazarão, em Joaçaba, que também foi uma das principais locações do filme. Dia 9 de novembro de 2024 – aliás, meu aniversário!
Com cerca de 100 pessoas presentes, das mais variadas idades, Matheus Francez e Agnel Kufner – gaita e violão, se apresentaram para iniciar os protocolos do lançamento. Após a introdução de Gabi Bresola, o público assistiu entre atento e risonho aos 23 minutos do curta-metragem. Depois disso, entrevistados e membros da equipe fizeram falas a respeito do filme, das suas percepções, suas experiências, seus ofícios e suas posições: bodegueiro, comerciante (já que uns preferem jamais associar seu negócio ao termo “bodega”), profissional do audiovisual, músico, frequentador, boêmio. “A produção virou a bodega e a bodega se traduziu na produção”, como disse Gabi.
“Eu fui lá no Kazarão essa semana e falei com o Vilmar. Ele disse que o filme deu um gás pra eles”, falou o Matheus na entrevista para essa matéria. O que fez Gabi completar: “quando a gente, jovem, vai e frequenta essas bodegas – e todos somos jovens que frequentam bodegas, nós significamos uma espécie de esperança pra eles também. Porque acho que a nostalgia que eles têm é justamente disso, pois são um monte de homens velhos e poucos jovens aparecem. E, no caso do Kazarão, tem muitos jovens! Vai muito jovem no horário do meio dia e tal. Então quando a gente faz o filme e lança no Kazarão e tem um monte de jovem, eu lembro do Nilson falando, eu lembro do Peninha [n.e: proprietário do Bar do Peninha, em Joaçaba, que foi entrevistado para o curta] falando: ‘meu Deus! Quanta gente jovem!’, eles ficam muito felizes quando tem gente jovem, porque eles também querem que outras gerações frequentem. Então quando eu falo nesse sentido de ‘ah, mulher não é vista e blá blá blá e é um corpo assim e assado’, também existe, por outro lado, um esforço deles de nos receber bem, sabe? E nós não somos jovens hipsters – apenas! – que só vão hipar o lugar, a gente vai porque a gente quer fumar, quer beber e etc. Então a gente é parte da bodega também, acho que isso que é importante de pensar: existe uma nostalgia, mas existe projeção em cima da gente também, da gente como jovens frequentadores. A gente indica que é uma prática que vai continuar diferente, mas vai continuar.”
Continuidade, mas também mudanças. E o fiado? Vai acabar? Esse modelo de negócio que, como nosso filme apresenta, envolve tantas coisas: confiança; comunidade; tecnologias; molejo?
Aliás, o suposto fim do fiado – e mesmo das próprias bodegas – foi uma questão que nos acompanhou desde o começo do projeto. Continua acompanhando: não à toa, o próprio final do filme deixa isso ainda em aberto.
“Eu acho muito significativo esse final, porque eu falei assim: ‘Renan, tinha que ter uma parada que diz que as bodegas vão terminar, só que fica no ar que elas não vão terminar’. Mas, na minha cabeça, era um troço melancólico, assim sabe: nossa, vai terminar! Não vai terminar! E você tem uma ironia no teu texto, na tua construção das músicas e tal, que se sobressaiu, entendeu? E tipo assim: precisa ser isso mesmo, saca? Tu disse: ‘Zé, vamo fazer, claro! Mas vai ser desse jeito aqui ó’. Aí não tem discussão, né?”, conta o diretor.
O fim e a continuidade se confundem de maneira embriagada nas percepções de quase todos que fizeram parte de “Fiado Só Amanhã” – desde equipe até entrevistados. “A produção virou a bodega e a bodega se traduziu na produção”, como disse Gabi.

Ainda teria um tanto para falar sobre tudo que envolve esse curta-metragem: as famosas placas com os dizeres mais agressivos e irônicos sobre o fazer (ou não-fazer) fiado; a especulação imobiliária que, mesmo nos centros urbanos do interior, é agressiva com a história arquitetônica das suas cidades e marginaliza esses espaços (bem como as bodegas que, muitas vezes, se ocupam deles); as nossas ambições em apresentar o curta-metragem nos mais diversos festivais de cinema da América Latina. Um tanto. Mas, como tudo na vida, tudo uma hora chega ao fim. Mesmo de maneira indeterminada, como “Fiado Só Amanhã”. Mesmo de maneira confusa e cheia de pontas, como esse texto que termina agora.
Ou não?


Deixe um comentário