O Curiosólogo

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Renata Swoboda: “Penso, logo existo – no fundo do mar”

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Fotos: Felipe Maciel

Com mais de 15 anos de atuação no cenário musical de Florianópolis, a cantora e compositora nos conta sobre a trajetória, as ideias, os percalços e as previsões de sua obra e vida artística.

Por Renan Bernardi

Atualizado pela última vez: 26/11/2024, às 19h11.

Conversámos, eu e Renata Swoboda, na sala de sua casa. Pensando em um lugar para fazer a entrevista e brincando com seus cachorros, também esperávamos por Felipe Maciel: recorrente colaborador tanto das fotos d’O Curiosólogo, quanto dos clipes de Renata.

Felipe chegou acompanhado de uma chuva fina que incomodava a noite do Itacorubi, bairro de Florianópolis onde a cantora mora desde a adolescência. Uma pequena praça de alimentação, ali perto da casa, oferecia um lugar aberto e coberto, espetinhos e chopps: pareceu o local ideal para a conversa que gerou esse texto.

Foto: Felipe Maciel

Sentados os três na mesa vermelha, peço para ela começar falando onde nasceu – mas, ao invés de onde, ela entendeu quando. “É…82. Eu sou da galera que cresceu nas coisas mais bizarras que você pode imaginar, dançando na boquinha da garrafa. Mas tinha muita música boa também!”, disse ela.

Renata Swoboda Dos Santos Pedroso nasceu na cidade de São Paulo – isso eu descubro logo na sequência. “Mas eu saí de lá com oito meses. Minha mãe dizia que eu cabia numa caixa de sapato! Aí a gente foi pro Rio de Janeiro. Meus pais moravam em São Paulo – mas eles são gaúchos – aí foram pro Rio porque eles trabalhavam na aviação, a Varig. Só tinha base em São Paulo ou Rio, você tinha que escolher, agora tem em Porto Alegre, enfim. Mas, na época, eles se conheceram numa festa de comissários, lá em São Paulo.”

Depois de passar a infância no Rio de Janeiro, Renata se muda para Los Angeles – também devido ao trabalho de comissários dos pais. “Aí eles foram pro baseamento que se chama, eles foram morar lá, num contrato de três anos, pra voar só pro Japão, porque é no meio do caminho: não tem como tu voar daqui pro Japão, são 24 horas, é ilegal isso – e desumano! Aí trocava a tripulação no meio do caminho. 100 famílias foram pra lá, brasileiras, da Varig, pra fazer essa troca: eles esperavam o avião chegar do Brasil e iam pro Japão.”

A família mora nos Estados Unidos enquanto Renata tem entre 10 e 13 anos. Mas a situação estrangeira era suavizada justamente pela comunidade de comissários brasileiros que se mudaram juntos para lá. “E brasileiro, né cara? A gente se procura e se acha, porque – porra, o americano é muito chato! – então a gente se aglomera, vamo fazer uma feijoada, é nóis”, me diz ela.

Esse foi o primeiro período que ela morou nos Estados Unidos, mas sobre essa segunda vez a gente só falou depois. Antes, voltamos ali para o bairro do Itacorubi, que foi para onde a família Swoboda veio após o fim do contrato que os fazia morar em Los Angeles.

“Quando a gente se entende como gente, geralmente é nessa fase, né? Então eu acho que sou muito daqui, eu me identifico demais. Quando eu vou viajar, quando eu volto, só de olhar Florianópolis de cima assim, já me dá uma paz: tô em casa”, afirma Renata.

Lá dos Estados Unidos ela trouxe na cabeça o boom do grunge no começo dos 90 e as primeiras noções de violão, aprendidas com o pai. “Meu pai sempre tinha um violão em casa, ele tocava – mal e porcamente, mas tocava. Aí eu pedi pra ele me ensinar quando eu tinha uns 10 anos assim. E ele me ensinou, a primeira música foi ‘preta, preta, pretinha’ – adoro! – e aí eu pedi pra fazer aula de violão. Aí eu fiz aula particular e nunca mais parei, nunca mais me separei do violão – o violão é minha extensão.”

“E era engraçado que eu morava nos Estados Unidos, e a gente sente falta do Brasil. Então a gente escutava muito axé! Eu sou muito eclética, eu gosto de axé pra cacete, por exemplo. Mas o axé roots! Tipo ‘êê faraó’ pra baixo.”

Foto: Felipe Maciel

Eu cresci ouvindo Dazaranha! Eles tavam bombando, cara! Eles faziam show de graça na Lagoa [n.e: Lagoa da Conceição, bairro de Florianópolis] e lotava! Então aqui tem essa – o Tijuqueira também! – tem essa onda da música ‘yowa’ assim, ela tem uma especificidade que é dela.”

“Mas eu era forrozeira também! Pra cacete, eu não vou negar, ‘eu não vou negaaar’ [n.e: cantarolando “É o Amor”]. Tinha uma pedreira aqui na Lagoa, eu matava aula pra ir pro forró. Até minha mãe me receber na porta um dia, minha mãe e minha tia: tava as duas na porta.”

Depois de viver essa juventude forroqueira na capital catarinense, Renata resolve voltar para Los Angeles aos 18 anos. “Lá eu tinha uma grande amiga que eu fiz na infância. E Los Angeles é uma cidade cosmopolita, tem muita música boa rolando. Então eu fui fazer faculdade de música lá. Aí eu casei com um americano, guatemalteco-americano, enfim. E aí, quando me separei, voltei pra casa.”

Sem concluir o curso de música nos Estados Unidos, no seu retorno Renata ingressa na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) para continuar a graduação. Convivendo no ambiente do Centro de Artes, Design e Moda (CEART), ela logo acaba formando seu primeiro projeto musical, Vinegar Tom, que, na verdade, era também um grupo de teatro. “Foi muito louco! Foi um acaso assim: eu era bolsista do Laboratório de Música e Tecnologia, que é um estúdio que tem lá. Aí colou essa galera do teatro, que ia fazer uma montagem e precisava de musicista pra tocar durante a peça, no espetáculo, e tinha que compor também. Era uma peça feminista, a gente ficou um ano em cartaz, porque a peça foi muito mais além do que a gente imaginava. A gente foi tocar em Ouro Preto, cara! Festival de Inverno de Ouro Preto, que na época era O festival do Brasil! Duas vezes! Dois anos. A peça acabou e a gente continuou como banda, era um monte de mulher. E eu tocava bateria: olha que loucura! Nem sei tocar bateria, mas eu tocava.”

Mesmo com o projeto dando certo, o grupo começa a se dispersar devido a mudança de interesses das membras. Renata, que queria continuar fazendo música e se apresentando, começa então a projetar o seu trabalho solo. “Eu não tinha outra opção. Uma foi fazer direito, uma foi fazer não sei o quê, jornalismo, não sei o quê, e eu falei: ‘não, meu negócio é a música, eu vou continuar’, aí eu continuei sozinha.”

Aproveitando ainda o ambiente do CEART, sempre cheio de artistas de diversas áreas, Renata montou seu grupo com músicos expoentes daqueles anos finais da primeira década do século XX. Faziam parte da sua banda François Muleka, Max Tommasi e Diogo Valente: parte do que viria a ser o trio Karibu e músicos que acompanharam François na carreira solo.

Sabendo que essas pessoas não vinham somente da música, pedi para ela me falar um pouco sobre como era o CEART daqueles anos. “Eu era mais amiga da galera das cênicas, que são minhas amigas até hoje. Eu gosto muito das gurias do teatro, é uma galera um pouco mais livre. Pra mim, foram os melhores anos da minha vida, só era foda tá na UDESC 08h20 da manhã todo dia. […] Então a gente vivia muito intensamente, eu vivia lá dentro! E eu era bolsista do estúdio e depois eu fui bolsista da Rádio UDESC: locutora – eu adorava! – e programadora. DJ, né? É muito gostoso você escolher músicas pros outros ouvirem, eu adoro! Então eu vivia lá dentro, melhores anos da minha vida assim.”

Com essa banda pré-Karibu, Renata me diz ter tocado “em todos os lugares que tu pode imaginar” com um repertório que já misturava suas composições autorais com covers. “Eu fiz, uma época, antes da Amy Winehouse morrer, eu fiz um tributo a ela e bombava! bombava! Orra, aí eu consegui umas gig foda. Aquela coisa: autoral tu patina pra caralho.”

Foto: Felipe Maciel

Um evento que marca bastante esse período da vida e da obra de Renata é o Luau MTV na Praia, que aconteceu em Florianópolis e promoveu uma batalha entre artistas locais, da qual ela participou. “Cada vez mudava de praia: era na Brava, depois Canasvieiras, não sei o quê. Aí eu batalhei, batalhei, batalhei e ganhei o Luau. Eu sozinha, com violão, ganhei! Não sei como, tenho a mínima ideia. […] Eu cantava só cover, só que o prêmio, eles falaram: ‘você vai poder cantar a sua música!’, então quando eu ganhei a batalha, eu toquei a música ‘De Quando’, que a galera falava ‘toca De Quatro!’, minhas amigas – gente finas, no meio do show mandam essa. E aí eu falei: ‘tá, mas eu não vou lançar um videoclipe nessa porra dessa MTV, cacete?’, e eles falaram: ‘vai sim! Assim que ficar pronto teu clipe, a gente vai lançar ele, cola lá em São Paulo’. E eu fui lá em São Paulo, na MTV, e levei meu clipe. Demorou um ano, tá? Eu não tinha dinheiro.”

A música “De Quando” foi gravada – com a já mencionada banda pré-Karibu – no estúdio Caixa D’água, em Florianópolis. “Cara, tu acredita que o Fernando [Sulzbacher], do Dazaranha, o violinista, a gente se trombou numa balada e eu expliquei a história, falei: ‘cara, eu ganhei um negócio na MTV, eu preciso lançar um clipe e não tenho nem porra de estúdio, nem dinheiro’, e ele falou: ‘não, eu vou te gravar!’. Aí eu gravei na Caixa D’água, que é o estúdio do Daza, e ele produziu, o Fernando.”

Assim como a faixa, o clipe também veio com a ajuda de outros artistas da cidade. “Aí eu tava na UDESC, chorando minhas pitanga pra professora, a Fátima [Lima], falei: ‘Fátima, eu ganhei esse negócio da MTV, mas quem que vai fazer meu clipe, caralho?!’, aí ela falou: ‘olha aqui, ó: a Bruna [Granucci]! Ela tem um coletivo de cineastas mulheres da UNISUL [n.e: Universidade do Sul de Santa Catarina]’. Aí eu falei ‘não é possível!’.”

Com a veiculação do clipe na MTV, o trabalho de Renata passa a ser mais reconhecido em nível local e nacional. Em Santa Catarina, ela é convidada para abrir shows de nomes como Gal Costa, Arnaldo Antunes e Maria Gadú. No Rio de Janeiro, a chamam para participar do Oi Levada, importante festival daquele período.

Depois, quando a demanda por seus shows solos deu uma baixada, ela participa de um movimento de compositoras mulheres chamado Sonora, durante aproximadamente uns três anos.

Já em 2015, lança a música e o clipe de “De Novo”, feita em parceria com seu amigo e aluno de canto Vini Domingues. “Eu morava no Rio Tavares [n.e: bairro de Florianópolis] e um amigo meu fazia aula de canto comigo. Só que minhas aulas de canto não são aulas de canto, elas são práticas em conjunto, piracera e piração. E aí a gente fez essa música – a gente acaba compondo, tá ligando? A gente compôs essa música. Ele canta, né? Ele começa cantando, na gravação tá assim. E é hit, todo mundo adora essa música.”

Gravado em São Paulo e finalizado em Florianópolis, o clipe foi feito em parceria com Elisa Matos Damazio, Diego Canarin, Erico Patricio Monteiro, Amarina Borck, Marcel Mars e Roc De Castro.

Alguns anos depois, uma música surge e inaugura um codinome para sua carreira musical: “Eu Só Existo No Fundo Do Mar”. “Eu fiz essa música em 2018, era tipo um mantra na minha cabeça ‘eu só existo no fundo do mar / desejo é querer / vontade é beijar’, ficava assim. Essa música nem tem uma forma muito padrão, ela não tem nem refrão. Aliás, minhas músicas são assim: elas são aformáticas!”, explica a compositora.

“Aí eu comecei a cantar esse mantra e um pessoal quis gravar. Um grupo que na época se chamava Slow Money, meu irmão fez parte. Uns cara da rima assim, eles tinham um beat fodido. O Billy Cheers fez toda parte de teclado. O Billy Cheers é um amigo argentino, na época ele morava com o Alegre Corrêa, ele era ajudante no estúdio ali, tudo mais, trabalhava com ele. Aí ele falou: ‘vamo gravar essa música! é bonita’, aí ele fez toda a parte de harmonia e tal, e o grupo do meu irmão fez o beat. Aí ficou meio trap, meio sei lá o quê. Eu faço de diversas maneiras essa música, na voz e violão as pessoas falam que fica outra coisa – e elas preferem! Mas então eu gostei tanto dessa coisa do mar, da profundeza da arte, que virou meu Instagram, virou um projeto, eu circulei no Sesc com esse Eu Só Existo No Fundo Do Mar.”

Em 2021, segundo ano da pandemia, Renata e o projeto Eu Só Existo No Fundo do Mar ganham um edital para gravar uma série de lives, o que acaba gerando o álbum Pandemusic, onde ela, seguindo a estética proposta no seu último lançamento, mergulha nas sonoridades digitais. “Desde 2018 eu comecei a aprender a mexer no Garage Band – e eu adoro essas parada! Eu piro pra cacete, minhas música tem cinco, seis, sete minutos, é uma loucura! Porque é muita possibilidade: aqueles samples todos, aqueles loop tudo, meu Deus! Cada hora tua música já vira outra atmosfera, uau! E aí eu fiz algumas inéditas nesse Pandemusic, músicas que me vieram, me abordaram durante a pandemia mesmo.”

Foi justamente nesse período que Felipe Maciel e Renata se conhecem, quando ela o convidou para dirigir o clipe de “Alto Astral”, uma das faixas inéditas do projeto. Felipe é quem conta como isso aconteceu: “Eu tava na minha residência precária no Itacorubi quando eu recebi uma mensagem: ‘oi! você que é o Felipe? tava pensando em fazer um clipe!’, o Massa, Matheus Massa, tinha passado meu contato – um amigo em comum, que é músico e tinha tocado comigo na minha primeira banda, que chamava Blackbirds, que era cover de Beatles.”

A parceria também logo rendeu outros frutos – e ainda vem rendendo. Naquele mesmo ano, Felipe escreveu um belo artigo para a Revista Artemísia falando sobre esse trabalho através de sua kinoreportagem e, pouco depois, já atuando como percussionista, acompanhou o projeto Eu Só Existo No Fundo Do Mar em apresentações promovidas pelo Edital Aldir Blanc e pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), que incluiu uma turnê pela região Oeste de Santa Catarina.

Foi nessa turnê que conheci Renata: eu morava em Concórdia e, na passagem do projeto pela cidade, Felipe convidou minha banda, Cucas de Arabutã, para abrir a noite. No ano seguinte, já morando em Florianópolis, me encontrei uma outra vez com Renata na mesma casa que estive no dia dessa entrevista. Depois disso, ela andou afastada.

Renata durante uma das apresentações da turnê pelo Oeste de Santa Catarina em 2022. Foto: Felipe Maciel

O último ano foi tumultuado para Renata Swoboda. “Eu tive que priorizar minha saúde, né? Mental, emocional. Eu fui caindo no fundo do poço de misturar remédio com álcool, crises agudas de pânico, então foi uma bola de neve que fodeu minha vida. E aí eu tive que me tratar, busquei todos os tratamentos que tu imagina! É tão difícil encontrar uma parada decente, porra! Sinceramente, tu sai mais traumatizada do que tu entra.”

“A galera tem que entender também que tu tem que saber teu ritmo e tal, mas a gente não tem noção da dimensão do problema que a gente tem – com a adicção, principalmente. Até porque é uma doença, digamos assim, progressiva. Ela não começa no mais trágico, a gente começa beber aí, enfim, vai piorando, a gente vai bebendo cada vez mais, aí vai acontecendo mais merda. É uma doença progressiva, então, hoje em dia, por exemplo, eu tenho noção da dimensão que é, mas a gente não tem quando tá no meio do rolê, do furacão. Aí a gente não quer tratar porque a gente acha ‘ah não, tomei um porre, deu uma merdinha, eu esqueci, eu acordei aqui do outro lado da cidade não sei como’ e vai relevando. Tem também um sistema de auto-sabotagem, mas a gente não tem noção de onde vai parar essa merda! É foda! E aí, quando tu vê, quando tu se percebe, tu tá tão no fundo do poço que tu começa a procurar tratamento urgente. E aí, minha dica é: não espere chegar no fundo do poço! Sabe por quê? Porque as pessoas vão te falando! Tua mãe, tua namorada, as pessoas próximas vão te falando: ‘Renata, talvez tu não podia beber tanto’ e você: ‘não! foi só um deslize’, mas não é de sacanagem, é porque você realmente não tem noção do buraco que é a adicção. E outra coisa: não vai em comunidade terapêutica católica, fundamentalista, sei lá. Eu fui e fui expulsa, obviamente, porque um cara falou que eu questionava muito as coisas: óbvio! Eu tenho alguns neurônios ainda.”

“Penso, logo existo!”, soltou o Felipe depois dessa fala. “Penso, logo existo no fundo do mar!”, retrucou de imediato a Renata.

“Sabe que que funcionou pra mim? Ir pro Nordeste!”, continuou ela. “Eu percebi que eu, desde a pandemia, tava piorando meu estado mental, emocional – abuso de substâncias também, tudo interligado. Aí eu busquei tratamento, e quando tive uma clareza na minha vida, eu falei: ‘quantos anos eu tenho sonhado, desejado ir pro Nordeste e não faço’ – isso te adoece, sabe? Você não realizar seus desejos, te adoece.”

Durante quase um ano, Renata morou em Pernambuco, entre Caruaru, Olinda e Recife e, por lá, voltou a produzir. Seu retorno para Florianópolis, já em 2024, veio acompanhado da gravação da música “Meu Dengo”, que já era presente nos shows da cantora há muitos anos.

Em Olinda, ela conheceu o tecladista Diego Drão. “Eu vi esse cara no Instagram, acho. Eu sou dessas, né? Eu vou indo, seguindo, e eu vi ele tocando e fiquei fascinada por ele. E eu falei com ele e ele topou! Falou: ‘vamo, vamo gravar, eu tenho um trio também’, aí eu fui no show dos caras e falei: ‘é isso! quero’.”

Música composta nos tempos de faculdade, junto com o amigo Rafa Oliveira, “Meu Dengo” ganha forma em fonograma e videoclipe em um momento peculiar. “Eu escolhi ela porque é uma música muito boa. Um amigo que me trouxe essa semente, daí a gente terminou a música juntos, mas ele que começou a compor ela. E eu acho que a gente tá vivendo exatamente o que a música traduz: uma polarização, a famosa polarização, a intolerância, uma briga escrota que não tem fim – haja visto o Trump. E eu achei que era propícia também pro momento da vida e histórico.”

“E o meu amigo – isso que é muito louco: ele morreu no meio do processo de gravação! Isso foi muito foda, eu fiquei uma semana de cama lá em Caruaru, eu não conseguia levantar. Foi uma porrada! Eu falava com ele, mostrei algumas coisas do processo. Ele tava super orgulhoso, eu não entendi essa porra, sinceramente. E ele tinha acabado de se mudar pra Chapada Diamantina, que era o sonho dele. E não durou muito. Foi foda. Aí eu fiquei meio assim de lançar essa música, é doce e amargo, né? Eu fiquei muito receosa. Mas, por outro lado, é uma homenagem.”

Ainda em Pernambuco, surge a ideia que vai dar no clipe da música. “Eu tava em Recife, tem uma rua lá que chama Mamede [n.e: Mamede Simões, rua no Centro de Recife], vários boteco lá, massa pra caralho, galera bem underground. E tem um bar chamado Super 8! O bar parece aqueles cinemas antigos, sabe? Aí eu colei lá, tinha mostra de curtas toda quinta-feira, eu falei ‘ó! eu tenho alguns clipes legais, não tá afim de exibir?’, aí o curador desse projeto me chamou pra apresentar meus clipes e fazer um debate depois, uma roda de conversa. E, nesse mesmo dia, eu vi o ‘Em Trânsito’, que é o curta do Marcelo Pedroso, ele tava lá. Então eu fiquei apaixonada: se eu tivesse um videoclipe pra essa música, seria esse!”

A relação criada entre “Meu Dengo” e o curta de Marcelo se dá pela temática política da canção, que aborda o voto nulo. Mas, por mais que esse não seja um tema explícito no “Em Trânsito”, nele há críticas às políticas neoliberais que aconteceram no Brasil nos últimos anos – Renata explica a conexão:

“Cara, a gente tá sofrendo um processo que a gente tem que botar na conta do efeito estufa. O que que causa a poluição? Além da agropecuária, a indústria automobilística, o petróleo, e o governo – todos! – incentivaram, mas principalmente o da Dilma e o do Lula, incentivaram muito a indústria automobilística. Então, eu falei assim: ‘vem cá, meu bruxo’. E o Eduardo Campos tá no curta! Ele morreu num acidente de avião – tu lembra disso? Pai do João [n.e: João Campos, prefeito de Recife], ele ia ser presidente! Ele tava quase eleito, eu acho. Então teve o acidente, né? E isso tudo se encaixa: o filho dele é o prefeito da cidade! Isso é muito bom, vários ganchos aí. Ah, gostei.”

Através de recortes de trechos do curta “Em Trânsito”, Felipe Maciel – novamente ele – editou o clipe da canção, incluindo ainda takes de Renata interpretando-a:

“E aí, na época da faculdade em que o meu amigo me apresentou essa música, tinha um movimento bem mais forte do voto nulo, era um movimento mesmo! Utópico? Pode ser, apolítico não é!”

Nessa hora, nós três rimos. A palavra “apolítico”, trazida por Renata, se referia à uma matéria do site Hits Perdidos que anunciou o lançamento de “Meu Dengo”.

“Tem gente que realmente não tá nem aí. Aí sabe o que o cara faz? Ele nem vai votar, ótimo, nem vai, paga quatro reais e tá ótimo. Aliás, o voto nem devia ser obrigatório pra começar, porque não adianta obrigar pessoas, elas têm que se politizar, elas têm que estudar, não adianta mandar todo mundo ir lá votar. Mas tem um pessoal que vota nulo por ideologia mesmo, não é porque não tem uma. Não se posicionar é uma posição, mas o voto nulo é uma posição, não é uma não-posição. O cara tá falando: pra começar, o sistema é roto, é escroto, não quero ser conivente. Não vai adiantar o Lula – beleza, ele é mais inclusivo? Ótimo! Mais diplomático? Ótimo! Mas não vai mudar muita coisa, velho! Cadê a reforma agrária que eles tão falando há 40 anos naquela merda? Então, se não fala de reforma agrária, nem fala comigo!”

Felipe, que foi o primeiro a comentar comigo sobre achar equivocado o uso do termo “apolítico” na matéria, também opinou sobre o assunto quando ele chegou ali na mesa. “Agora, a minha perspectiva é que o cara falou mais sobre ele do que sobre o teu trabalho, cara! Sobre a perspectiva dele. Porque é uma ânsia própria que tá no automático de muita gente, estar aplicando essa bipolaridade assim: ‘ah, se não é Lula, é Bolsonaro; se não tá votando militantemente, então é apolítico’, como se a política só fosse realizada dentro de uma perspectiva da social-democracia.”

“Se botasse ‘apartidário’, pronto!”, resolvi eu também comentar. “Apartidário, beleza!”, concordou Renata. “Porque eu realmente não tenho partido. Como disse Cazuza: meu partido é o coração partido.”

“Mas essa música, ‘Meu Dengo’, ela fala do voto nulo muito por conta disso: é um desabafo de um cansaço!”, continua ela. “Cansada de discutir, cansada de explicar porque que o feminismo é importante, o que que é a Lei Rouanet o que que não é, a importância de se ficar em casa numa puta epidemia, a importância de se vacinar, a importância da ciência, da pesquisa, das relações humanas, estudos humanos, direitos humanos, a importância de se encontrar quem matou Marielle [Franco]. A gente tem que brigar muito pra avançar pouco, e isso cansa! Então é muito sobre isso, muito mais do que um movimento do voto nulo, é mais assim: foda-se! Nem que seja um desabafo, entende? Eu tô cansada, mas eu vou falar!”

Renata durante as gravações do clipe de “Alto Astral”. Foto: Felipe Maciel

Depois de comentarmos sobre esse seu último lançamento e seus desdobramentos, pergunto à Renata sobre as promessas e previsões que ela tem para o seu projeto, mas isso acaba esbarrando em outro tópico significativo de sua trajetória: mesmo com 15 anos de trabalho, shows e lançamentos importantes, ela nunca lançou um álbum ou EP que concentrasse suas canções. Pandemusic foi algo nesse sentido: uma reunião de canções de Renata sendo interpretadas ao vivo e juntas em um mesmo projeto. Mas, infelizmente, o álbum caiu do Spotify e ela ainda não conseguiu colocar de novo.

Nesse papo, ela chegou a comentar certa descrença com o formato de álbum, mas acabou confessando a vontade de registrar algo assim. “Vontade eu tenho. Mas aí tem que ter uma grana pra ir num estúdio foda e ficar com os músicos lá fritando três meses, que nem a Cássia Éller foi lá pras montanhas pra fazer o acústico dela lá, ficou três meses. O Rolling Stones fez isso também, foi pras montanhas, ficou três meses lá tomando LSD e fazendo som: aí beleza! E bebendo cachaça e, sei lá, chupando maconha.”

“Agora, tu vai num estúdio, o cara marcando hora ali, ‘vai minha filha que tá acabando teu tempo’, ah, bicho: na boa, não tem como tu fazer uma parada significativa assim, com uma relevância cultural, sonora. Me desculpa, cara, a gente precisa tá relaxado, tá sintonizado, ter conexão, o improviso, tem que ter espaço pro improviso, espaço pra criação, errar mil vezes. Não é assim!”

Esse processo de realizações acaba deixando os lançamentos de Renata um pouco esparsos, mesmo que, desde o começo de sua carreira, ela nunca tenha parado de produzir. Posto isso, perguntei pra ela se esses períodos sem lançamentos acabam afetando-a de alguma forma, e ela responde: “Eu já gravei várias coisas, por exemplo, que eu não lancei. Porque não gostei, não sou obrigada. Então os cara ficam meio putinho comigo, os dono do estúdio – foda-se! Não sou obrigada, eu preciso gostar. Se eu não gostar, como é que vai ser? Eu preciso gostar. E aí, então, é também uma defasagem, um problema, porque é difícil eu gostar! Justamente por isso, acho que falta a parte que é mais importante, que é a parte criativa, a parte de conexão entre os músicos. Nesse sistema de ‘vamo no estúdio, paguei 2 horas’ é complicado, eu não quero! Agora, a ‘Meu Dengo’ eu gostei pra caralho, se não, não tinha lançado. Eu gostei porque eu produzi, eu pensei na forma da música, na instrumentação, nas partezinhas, no arranjo, eu pensei! Então eu me apropriei daquilo durante anos. Demorou! Mas esse é meu processo. Quer música fast food? Vai lá, faz um beat, sei lá. Mas o meu processo é lento, é lento!”

“Eu sinto essa pressão externa. Eu sinto um pouco, mas não sei se é por causa deles ou se é por causa de mim mesma – a gente se confunde. Ainda mais hoje em dia – hoje em dia, não sei: esse negócio de ‘antigamente’, ‘hoje em dia’, eu acho furada – mas você tem que ficar lançando, tem que ter consistência, tem que ter sempre novidade! Isso é um pouco chato, né? Mas eu gostaria de ter um disco, uma conquistazinha. Mas trabalhar nele com esmero, entendeu? Com paciência, pirando, porque eu gosto muito de experimentar, eu sou muito experimental, e esse que é o problema: porque, pra decidir o que que vai ficar definido, demora! Por isso que eu te falei: eu demoro!”

Foto: Felipe Maciel

Com esmero e muito gosto pelo que faz, Renata vem construindo uma carreira positivamente dúbia: ao mesmo tempo que sua experiência no ramo é inquestionável, boa parte de sua obra ainda espera o momento de se apresentar ao mundo de forma mais definida.

Agindo com calma (ou demora, como ela mesma falou) nas suas produções, a vida artística de Renata Swoboda é simultaneamente jovem e madura, experiente e experimental. Há muito o que saber sobre o que já foi feito – e há muito que saber sobre o que vem por aí!

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