Fotos: Mathý Odara
Com o objetivo de suprir demandas de discussão e de formação no circuito artístico de Itajaí e Santa Catarina, o Projeto PORTUÁRIO chega na sua terceira edição em 2024 apostando em um formato híbrido entre artes visuais e literatura.
Por Renan Bernardi
Atualizado pela última vez: 28/10/2024, às 16h19.
Tudo bem: produzir arte no Brasil não é uma tarefa fácil, mas se produz. Por mais que adversidades acompanhem, emperrem e judiem a construção de ideias em atos, palavras, imagem, som e vídeo, o ímpeto criativo (ou criacionista?) costuma achar brechas para se manifestar.
Não é fácil ser artista no Brasil, mas eles não faltam. Falta público?
A questão da distribuição de produções nacionais e ações de criação de plateias locais são discussões presentes na maioria dos cenários artísticos do Brasil há quase cem anos ou mais do que isso.
Se não falta artista, não falta arte: arte de tudo que é tipo e que, por mais diferenças e contrastes que produzam, infelizmente costumam se encontrar nas dificuldades de circulação de seus materiais e no acesso deles pelo público.
E foi por se encontrarem nessas dificuldades que o Projeto PORTUÁRIO teve a feliz ideia para sua terceira edição, que aconteceu entre os dias 4 e 19 de outubro em Itajaí-SC. Unindo cenários das artes visuais com a literatura, o evento buscou discutir a circulação e a distribuição de livros no mercado editorial independente, além de promover uma feira que contou com a presença de mais de 40 editoras e artistas.
Para saber mais sobre essa edição – e também sobre o histórico do projeto e dos contextos que o movimenta, conversei com Sarah Uriarte, artista visual, professora e editora de Itajaí que fundou e idealiza o PORTUÁRIO desde 2016.

É curioso notar que, de forma circular, a grande novidade da terceira edição do PORTUÁRIO está ligada a um evento que também está na sua origem: uma feira de publicações de artista. E mais do que isso: a feira flamboiã.
Parceira ativa do projeto neste ano, a feira encabeçada por Gabi Bresola e Marcos Walickosky foi justamente um dos impulsos para Sarah criar o PORTUÁRIO. Foi em 2016 que “rolou um convite pra participar de uma feira flamboiã, pela Gabi e pelo Marcos”, diz ela. “E, nesse momento, eu tinha trabalhos em fotografia e tal, mas eu não tinha muito trabalho nesse lugar de múltiplos ou de publicação de artista. E daí eu comecei a pensar algumas traduções possíveis pro espaço impresso pra poder participar dessa flamboiã.”
“Nesse mesmo ano que teve essa flamboiã, foi quando aconteceu a primeira edição do Projeto PORTUÁRIO, que leva esse nome porque grande parte dos centros culturais aqui de Itajaí, das galerias e tal, fica na Zona Portuária, né? E, na primeira edição, foram quatro artistas de Santa Catarina que vieram dar oficinas aqui. Então o PORTUÁRIO surgiu pra suprir um pouco essa falta – aqui em Itajaí a gente não tem nenhuma graduação em Artes Visuais, são poucos os cursos livres que a gente tem. Tem uma cena da pintura e da gravura, mas é recente que esses artistas, que tão ali, tem trabalho consolidado desde os anos 80, 90, começaram a abrir os ateliês pros artistas mais jovens. Tinha muito essa demanda de formação nas artes visuais, daí a gente criou o PORTUÁRIO por isso.”
Na época, Sarah já tinha o projeto Desdobraduras, hoje chamado de des editora. “A editora? Ela nasce em 2014, tá fazendo 10 anos esse ano. Mas ela vira de fato editora em 2019. Mas sempre foi esse projeto, né? Tanto que até hoje eu chamo de editora e espaço de pesquisa e produção, que ela engloba vários projetos assim […] começa mais nesse rolê de produzir encontros de formação mesmo, seja com o projeto PORTUÁRIO, que era um projeto consolidado, e outras formações esporádicas.”
Com foco “em pesquisas artísticas que tensionam diferentes linguagens dentro do campo das artes visuais”, essa primeira edição contou com quatro convidados que promoveram um encontro cada: “O laboratório como espaço de processo”, por Daniele Zacarão, de Criciúma-SC; “Videoarte – memória e tempo”, por Tirotti, de Joinville-SC; “Proposição sonora panquecas fantasmáticas”, por Raquel Stolf, de Florianópolis-SC; e “Espaço impresso”, por Regina Melim, também de Florianópolis.
Regina inclusive é peça importante para entender a ligação que há entre PORTUÁRIO e flamboiã. “A des participa da feira flamboiã, foi a primera feira que a gente participa, daí começamos a participar de várias. Então eu entro no mestrado orientada pela Regina, que foi orientadora da Gabi e do Marcos. Quando eu tava no mestrado, eu morava com eles, então a gente vai se juntando sempre. Eles vem pra segunda edição para dar oficinas e na terceira eu chamei eles pra fazer a Feira PORTUÁRIA junto com a feira flamboiã, fazer uma feira casada. Então, de alguma forma, são parceiros desde o começo”, conta Sarah.
Ainda sobre a primeira edição, a entrevistada diz que “naquele ano, aquela edição do PORTUÁRIO foi bem significativa no cenário. A gente percebeu uma reverberação de pessoas que às vezes já tinham uma pesquisa, mas não se entendiam como artista, aí viram as referências e passaram a se assumir artistas.”

Por conta das ocupações acadêmicas e outros projetos, o PORTUÁRIO acaba tendo um hiato, e uma nova edição volta a acontecer só em 2021. “Eu acho que, quando a gente fez o primeiro PORTUÁRIO, o impacto foi grande, mas várias coisas aconteceram no cenário. Pouco depois eu entro no mestrado, as coisas ficaram confusas. Mas a gente sempre teve a intenção de fazer de novo, porque, por exemplo: um dos artistas que foi mediador agora no encontro de editoras, que foi a primeira programação dessa terceira edição, ele fez oficina da Regina lá no primeiro PORTUÁRIO. Tem gente que fez as três edições, e a gente começou a ouvir das pessoas o quanto tinha sido importante e tal. Quando chegou em 2021, a gente já tinha um cenário novo de pessoas na área, e de pessoas muito jovens, de 19, 20 anos, que não tinham vivido o primeiro PORTUÁRIO, então sempre teve vontade de fazer a segunda edição, mas parece que só em 2021 que a gente efetivamente conseguiu, né? Porque quando eu entrei no mestrado, enfim, aquele tempo de pesquisa, e no ano seguinte eu passei fazendo a edição do meu livro, que eu lanço pela des – é o livro da dissertação. E com a pandemia e a vontade de manter o PORTUÁRIO como um projeto presencial, 2020 passou e, só em 2021, conseguiu ter espaço pra acontecer, não era pra ter um hiato tão grande”, conta Sarah.
“Então a gente chama de novo quatro artistas catarinenses: a Gabi Bresola, o Marcos Walickosky, os dois da flamboiã, a Tina Merz e o Gabriel Villas, pra falar especificamente, dar oficinas sobre os seus trabalhos dentro desse lugar da publicação impressa. Então essa segunda edição do PORTUÁRIO ela já é focada nisso: publicação de artista em impressos.”

Em um intervalo de tempo bem menor, o PORTUÁRIO volta a acontecer em 2024 com uma sintonia de continuidade com as edições anteriores, mas algumas mudanças são destacadas por Sarah: “Muda um pouco o formato. A primeira e segunda edições foram exatamente o mesmo formato, que eram quatro oficinas, a única diferença é que na primeira as oficinas eram um pouco mais longas, né? Na primeira eram 12 horas de oficina, na segunda eram oito horas. Mas era isso: um projeto de formação. Então eram as oficinas, o que fazia que o público-alvo do projeto fosse um público nichado, de pessoas ou que já tinham prática artística, ou que tinham interesse. Em 2021, a gente teve muito estudante de graduação, por exemplo, que não necessariamente se assumia como artista, mas que tinha um envolvimento. Nessa edição agora, uma das minhas questões era: se a gente vai falar sobre circulação, a gente precisa ter ações pra um público mais amplo. Então veio a ideia de continuar com quatro ações, mas tira uma oficina e bota a feira, até porque não tinha como falar de circulação sem ter uma ação de circular, então veio a feira.”

“A outra oficina foi substituída por um encontro que a gente chamou de ‘encontro de editoras e iniciativas editoriais independentes’. Então a gente chamou dois editores: um de uma editora de artes visuais, outro de uma editora de literatura, ambos aqui de Itajaí, com atuação aqui em Itajaí, pra mediar uma conversa sobre o nosso cenário local, em termos de circulação e mercado editorial, e sobre possíveis estratégias que a gente poderia pensar em conjunto.”
Com mediação de Romeu Silveira (zero-edições) e Vanessa Gonçalves (rizoma projetos editoriais), o encontro aconteceu no dia 4 de outubro no campus de itajaíense da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), marcando o início da programação do terceiro PORTUÁRIO.
“Isso também foi muito legal, porque uma coisa que eu tinha percebido na última edição é: quando as pessoas vêm trazer as oficinas, às vezes isso destrava muita coisa que a gente pensa sobre o circuito, tem pra falar e não tem espaço pra dar vazão. Então a ideia de trazer o encontro de editoras foi esse, a gente também trouxe um público diferente que conseguiu vir trazendo as suas experiências e discutir”, conta Sarah.

“Então, essa foi a mudança mais brusca assim, né? A gente ter ações pra públicos levemente diferentes. E, dessa vez, a gente traz pessoas de várias regiões do Brasil – a primeira e segunda edições trabalharam só com artistas catarinenses. Dessa vez, a mediação do encontro de editoras foi de pessoas locais, de Itajaí, as oficinas são de uma oficineira do Paraná e a que vai acontecer sexta-feira é de um oficineiro de Belém do Pará, e a feira foi de abrangência nacional. […] A ideia foi conseguir abrir um pouco. E as oficinas, dessa vez, uma é bem das artes visuais e uma é bem da literatura, embora a gente tá conseguindo ter público das duas coisas nas duas.”
A paranaense em questão é Luana Navarro, que no dia 12 de outubro promoveu a oficina “cola, velcro, outras materialidades, papel e tesoura: entre zines, publicações de artistas e fotolivros sapatão” na Casa da Cultura Dide Brandão, mesmo local onde, no dia 19, o paraense Thiago Kazu fez a oficina “demandas e estratégias de circulação de edições independentes a partir de Belém do Pará”.

Entre esses dois eventos, a feira realizada em parceria com a flamboiã aconteceu no domingo, 13/10, no Mercado Público de Itajaí.
Conforme já mencionado no texto, esta foi uma das novidades do PORTUÁRIO desse ano – e uma novidade muito bem-vinda, deixando em Sarah a vontade de continuar e expandir a ideia. “Eu tô achando que a feira foi esse espaço muito legal, um espaço de troca, porque o espaço da exposição tá muito esvaziado. Então tenho pensado muito nisso, que a feira continua independente do projeto. Foi uma tentativa mais segura fazer ela primeiro dentro do PORTUÁRIO, mas talvez a feira ganhe vida própria e o PORTUÁRIO siga como esse espaço de formação, até pra ele ter mais liberdade na programação e no formato.”

Sendo a circulação e a distribuição os motes centrais da terceira edição do PORTUÁRIO, é inevitável que as conversas que esses temas geram cheguem também na questão dos fomentos públicos para projetos culturais.
Comentei com Sarah sobre como Itajaí é reconhecida pelos seus eventos culturais, principalmente voltados à música, e perguntei se isso de alguma forma tinha algum tipo de relação, negativa ou positiva, no cenário das artes visuais e da literatura.
“A gente discute bastante com as gestões por causa disso! Justamente porque o cenário musical é muito consolidado, né? Mas ele é um cenário um tanto a parte assim, o Festival de Música [de Itajaí] desse ano teve quase quatro vezes a verba da 16ª edição do Salão Nacional de Artes de Itajaí, que também aconteceu esse ano e durou um mês inteiro com várias programações. Então, assim: existe uma disparidade muito grande, até porque esse cenário da música, ele traz algumas questões – a gente discutiu isso no encontro de editoras até, que é a relação do público com a obra na música é diferente da do público com a fotografia, com uma tela, com um livro. Em geral, nas artes visuais e na literatura, a gente tem ações de público reduzido, a gente tem mais essa ideia da fruição individual, então é todo um trabalho do nosso Conselho de Políticas Culturais, por exemplo, pra fazer as pessoas entenderem isso, né? Que eu não posso dizer que vou dar mais dinheiro pro projeto que tiver um público maior, porque um show sempre vai alcançar muito mais público do que uma venda de livro. Mas a gente tem que entender qual é a natureza de cada uma dessas linguagens e, por exemplo, entender que: tudo bem, o livro, no lançamento vai ter 30 pessoas e num show vai ter 300, mas os 30 exemplares do livro em algum momento vão chegar em lugares diferentes. São nuances da área que a gente entende que, de fato, e eu acho que isso é no Brasil como um todo, a música tá muito mais no nosso dia a dia, né? De forma mais consciente talvez, então acho que nosso trabalho de formação de público nas artes visuais e na literatura ainda tá muito inicial”, me respondeu ela.

Chegando no fim de nossa conversa, Sarah comenta que, na soma dos pesos, entre os embates e dificuldades, a terceira edição se saiu muito bem na missão de unir as discussões e projetos entre as artes visuais e a literatura.
“Eu fiquei bem feliz com o quanto as pessoas da literatura aderiram ao projeto, e aderiram se sentindo muito pertencentes. Eu fiquei com medo que fosse existir esse hiato entre a galera das artes visuais e a galera da literatura, porque realmente tem algumas coisas na produção de livros, coisas assim, que a gente tem uma diferença muito grande, né? Desde os custos de produção, por exemplo, que em geral nas artes visuais a gente tem a questão de projetos gráficos específicos, enfim, é quase um negócio forma versus conteúdo em alguns lugares. Mas a galera da literatura pegou junto. Eu também percebi algumas pessoas das artes visuais que não trabalham necessariamente com publicação, mas que vieram interessadas na pesquisa da galera que veio, né?”
“Eu tô muito feliz com essa edição, primeiro porque ela era uma edição um pouquinho mais arriscada, envolvia outras coisas – tipo a feira, que a gente tem como garantir que tudo vai acontecer, menos o público, né? Então eu fiquei bem feliz que, pra uma primeira edição, rolou um público legal, quase todo mundo vendeu alguma coisa ou outra. Acho que não foi um grande sucesso de vendas, mas pra uma cidade onde isso não costuma acontecer, eu fiquei bem feliz. Eu tô meio eufórica na verdade com essa edição, porque acho que tá dando mais certo do que eu pensava! As conversas também, no encontro de editoras, foram muito legais. A gente saiu com algumas ideias de pensar uma feira coletiva meio permanente na cidade, então acho que a gente tá conseguindo apontar alguns caminhos possíveis pros próximos anos e que, pra gente, vai ser muito importante, porque a gente acabou de eleger um prefeito do PL [Partido Liberal] com seis vereadores do PL, então assim: a gente tá correndo muito risco, porque Itajaí é uma cidade que ainda tem muito edital, né? A coisa de fomento, em Itajaí, funciona, e a gente corre risco de meio que perder isso também. Então eu acho que foi um momento bonito da gente se juntar e se reconhecer pra pensar esses espaços alternativos, em que a gente consiga continuar produzindo e circulando as nossas produções se o cenário mudar muito.”

“Uma das minhas intenções é fazer com que o PORTUÁRIO passe a acontecer agora com mais recorrência, como foi talvez agora, que foi 2021 e 2024, mas talvez a cada dois anos, enfim, a intenção é que ele vire um projeto um pouco mais permanente, continuando pensando essas questões de literatura e artes visuais. Mas eu sempre penso no projeto a partir do que, naquele momento, me parece uma demanda da área no nosso circuito local. A intenção é essa: que o PORTUÁRIO continue partindo do circuito local e vá trazendo pessoas com quem a gente possa trocar, com quem a gente possa aprender pra melhorar as coisas por aqui, né?”, conclui ela.
Propondo uma rede que une os diferentes cenários artísticos como forma de suprir as demandas de formação e circulação que são comuns a eles, o PORTUÁRIO une também diferentes cenários geográficos para que, a partir das diferentes experiências regionais, artistas, editores e públicos possam se encontrar, acessar as produções e entender melhor seus problemas e suas as possíveis soluções.



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