Fotos: Felipe Maciel
Após quatro anos, a Muñoz retorna aos palcos em 2024 com um show inédito no Célula Cultural, em Florianópolis. Aproveitando a situação, a dupla convidou O Curiosólogo para contar a sua história.
Por Renan Bernardi
Atualizado pela última vez: 09/09/2024, às 10h03.
No dia 29/08/2024, eu e Felipe Maciel fomos até o estúdio dos irmãos Mauro e Samuel Fontoura – no bairro João Paulo, em Florianópolis-SC – para contar a história da Muñoz: banda formada pela dupla e que, há mais de 10 anos, vem se destacando no cenário do rock no Brasil.
Há tempos já havia convidado Mauro para essa conversa, mas a condição ideal para ela acontecer se deu só agora, quando a banda está para retornar aos palcos depois de quatro anos sem shows.
Marcado para o dia 13/09/2024, o retorno da Muñoz se dará no Célula Cultural, em Florianópolis, em uma apresentação com repertório inédito e em uma noite que ainda terá as presenças do homem-banda Chucrobillyman e do DJ Dum Dum Boy.

Mauro e Samuel formaram a banda em Uberlândia-MG, mas residem em Florianópolis desde 2015. Porém, a história dos dois começa em outro canto do Brasil: na cidade de Mineiros, interior de Goiás, onde ambos nasceram.
A relação com a música também começou por lá, ainda dentro da casa da família, onde o pai deles tocava, cantava e ouvia Roberto Carlos, Tim Maia e Bee Gees. “É que meu pai é músico também, ele é cantor, tem um disco gravado. Então ele sempre incentivou assim, desde moleque. Meu pai também organizava festa: ele pegava os músicos da cidade e montava a banda. Chegava em músico por músico, montava a banda, montava o repertório e ele fazia os rolês”, conta Mauro.
Vendo o pai tocar, assistindo DVDs e ouvindo LPs, a vontade de também ser agente na música logo foi despertada nos irmãos, que começaram a tocar na igreja da cidade: Mauro no violão, Samuel na bateria: como é até hoje. “Na verdade, eu comecei a tocar com meu tio, meu tio que começou e depois que eu já tava mais evoluído, eu quis tocar na igreja. Aí Samuel logo entrou também com bateria, a gente tocou uns anos ali. Esse rolê de ter banda, de tocar junto, começou na igreja. E aí depois comecei a tocar guitarra e a gente começou com o rock and roll, aí já era.”
Entre 2008 e 2009, a dupla se muda para Uberlândia-MG, onde o rolê de ter banda se tornou algo muito mais frequente. E nessa (alta) frequência de blues e rock, é que surge a Muñoz.

Se há muito tempo a banda é reconhecida pela sua formação em duo, é curioso saber que o início da banda foi bem mais povoado. “Era uma banda de seis pessoas, a gente tocava blues, uns [Jimi] Hendrix, uns blues com rock. Eu lembro que a gente fazia um tributo à Woodstock. Então começamos a tocar nos lugares, ganhar uma graninha. Só que aí essa banda acabou, deu uma treta, galera se desentendeu e a gente tinha um show marcado! Aí eu falei: ‘vamo tocar só nós dois nesse show, vamo fazer um duo’. Então a gente fez esse show e foi massa! Então começamos a compor e deu preguiça de mudar o nome: o que eu acho que foi um erro, porque a banda que a gente tinha antes era totalmente outra parada e já tinha esse nome, Muñoz. E quando fizemos o álbum, já tínhamos tocado pra bastante com esse nome, não tinha nem como mudar mais. Mas né, fazer o quê?”, explica Mauro.
Errado ou não, Muñoz também é o nome do primeiro álbum da banda, lançado em 2013. Mauro conta que as influências que geraram a sonoridade pesada desse trabalho surgiram muito devido às idas para a Goiânia, ainda como sexteto, onde presenciaram um cenário efervescente de bandas que atuavam e circulavam por lá. “Quando a gente ia pra Goiânia, a gente ia nos festivais de lá, começou a coincidir que os dias que a gente tava lá, tava rolando um Bananada! E quando a gente viu tipo: Black Drawing Chalks, Hellbenders, a gente já quis tocar aquilo ali. Então foi um ponto inicial pra Muñoz mudar o que a gente já tocava.”
Nisso, Samuel lembra de outra referência muito importante para a formação do som da banda. “Mas acho que a primeira banda que inspirou nós assim, foi The Baggios, né? Que era um duo também”, e Mauro lembra da cena: “Rolou um festival em Uberlândia, era um clássico lá, chamava Jambolada. E aí a gente viu The Baggios pela primeira vez, eu acho que isso foi em 2012. Nessa época que a gente abriu a cabeça pra essas possibilidades, mas que foram vim bem depois.”
Já como duo, os irmãos gravaram o álbum homônimo através de uma parceria com o selo Casa Verde, que atua em Uberlândia. “Antes, era a galera da Fora do Eixo, era o Avner [Andrade] e a Ana [Morais] e eles são grandes produtores, os dois já moraram na Casa Fora do Eixo em São Paulo, então eles conheciam todo mundo. Os cara curtiram nosso som e a gente virou amigos. E tinha um produtor que tem um estúdio, que é o Rafael [Vaz], onde gravamos o álbum. Eles produziram, lançaram nós e a primeira turnê da banda foi pelo Fora do Eixo. A gente fez o festival Grito Rock, rodou por ali, foi o início”, conta Mauro, que também cita Olívia Franco e o projeto Casa Verde Sessions, onde a banda também participou.
Assim como o primeiro álbum, o segundo também foi gravado e produzido pelo mesmo estúdio e equipe em Uberlândia. Nebula sai em 2014, em um momento de transição da banda, pois logo no início do ano seguinte, 2015, eles se mudariam para Florianópolis. Curiosamente, essa vinda acontece de maneira muito relacionada com os desejos e as amizades da infância deles em Mineiros-GO.
Mauro conta que sempre gostou de Florianópolis. Seu avô lhe falava sobre a cidade e isso despertava nele a vontade de morar aqui. Samuel diz que Mauro era fã do Guga Kurten, famoso tenista florianopolitano, e o irmão afirma rindo que é verdade.
Deu então que um amigo de infância, lá de Mineiros, estava morando na capital catarinense e usava o lugar onde é o estúdio dos irmãos como ateliê para as peças de carros alegóricos que ele construía. Quando ele precisou vender o espaço e o pai dos irmãos Fontoura ficou sabendo, logo alertou os filhos, que toparam a mudança na hora. “O negócio foi o seguinte: a gente pegou essa casa e a gente não pensou duas vezes: ‘vamo pra lá, reformar a casa, montar o estúdio, trampar lá com música’, e a gente veio no meio da reforma, ficamos um ano no meio da bagunça aqui”, conclui Mauro.

Apesar das adversidades que qualquer mudança desse tipo causaria, a vinda para o Sul do país aconteceu em um bom momento para a banda. “O segundo álbum, o Nebula, ele foi muito bom porque a gente gravou aquele clipe e o negócio deu uma estourada, repercutiu bastante, e quando a gente chegou aqui, a gente conseguiu fazer uma turnê gigante, foi pro Rio Grande do Sul, rodou pra caramba aqui.”
A mudança também refletiu em um maior foco dos irmãos para a Muñoz, pois em Uberlândia eles dividiam o tempo também com a Dirty Wolves, banda de blues que ambos participavam. “A gente tinha acabado de lançar o álbum, só que a gente não tinha nem ideia de que a galera gostava de nós aqui, e quando chegou, começamos a arrumar muito show muito fácil, principalmente no Rio Grande do Sul, a gente rodou muito. Foi a primeira vez que focamos na Muñoz mesmo, porque antes a banda ficava meio de lado […] Eu falo que aqui a gente começou a ser mais conhecido”, conta Mauro.
Nesse papo sobre o reconhecimento que a banda ganhou nesse período, os irmãos lembram da importância da produtora Abraxas, que por várias vezes colocou a Muñoz para tocar junto com bandas internacionais, como Radio Moscow e Kadavar, quando estas estavam em turnê pelo Brasil.
A vinda para Florianópolis também trouxe a oportunidade dos irmãos terem o próprio estúdio e, dessa forma, produzir álbuns. O primeiro deles foi da própria Muñoz, que veio junto com o lançamento do selo Infrasound Records. “No terceiro, que foi em 2016, a gente teve a ideia de lançar o álbum e abrir o selo. Porque com essas viagens que a gente fez aqui, bombando aquele rolê de bandas, a gente conheceu muita gente. E, como a gente tava montando o estúdio, tivemos a ideia de abrir pra produzir e gravar bandas. E pra esse lançamento do álbum, que foi gravado aqui já, a gente pegou o Rafa, que trabalhou nos dois primeiros, e trouxe ele pra cá pra produzir também o terceiro.”
Através do selo, também foram lançados os álbuns Into The Mess (2017), da banda Red Mess; 2019 (2018), da Stolen Byrds; e o álbum homônimo de Carolino (2019).
O nome do selo, Infrasound, apresenta também uma influência que é importantíssima na sonoridade que a banda vem adotando nos últimos anos: o afrobeat. “Tinha uma banda que a gente curtia chamada Monophonics, e ela tem um disco chamado Into The Infrasounds. E aí eu fui ver que infrasound, um infrassom, é tipo um som que o ouvido humano não consegue perceber, mas alguns animais conseguem. Ele é tão grave que tem alguma espécie de tigre que consegue paralisar a presa com esse som que ele emite. E eu meio que gostei disso”, quando Mauro disse isso, perguntei se havia uma relação com o som grave que a Muñoz faz, e ele concordou: “É! Eu achei que tinha a ver com o rolê mais pesadão assim.”
Mesmo pesado, o quarto álbum da banda, lançado em 2019, é outro resultado dessas influências de afrobeat, através também da escuta de Tony Allen, Here Lies Man, Melt Yourself Down e Antibalas.
Nekomata, como foi chamado, foi gravado em Piracicaba-SP, a convite de Luciano Benetton, que estava montando o selo Locomotiva Records. Com quatro meses de pré-produção em Florianópolis, a Muñoz chamou o músico e produtor Júlio Miotto para acompanhar a montagem das faixas que foram gravadas oficialmente nos estúdios da Lab Sound.
Esse trabalho também é ímpar na carreira da Muñoz por trazer a banda para além da dupla guitarra e bateria, com adição de sintetizadores e percussões. Assim, quando a banda realizou as apresentações desse álbum, contou com a participação de Michu e Malu Duarte, que ajudaram com os batuques e backing vocals.

Com essa formação em quarteto e apresentando as canções do Nekomata, a Muñoz se apresentou pela última vez em 2020, durante o festival Bradamundo. Comento com eles que eu estava lá vendo esse show junto com os meninos da Aminoácido e aproveito para falar da jam session Desastre do Azeite, que a dupla lançou em colaboração com a banda. “Eles vieram fazer um show aqui, ficaram aqui em casa, aí a gente ligou tudo ali e fizemos aquela jam doida. Os cara lançaram aquilo só pra deixar registrado”, diz Mauro.
Desde então, a Muñoz não realizou mais lançamentos e teve suas apresentações limitadas à participações em shows com a Petit Mort (banda da Michu), onde a dupla tocou apenas o repertório da outra banda.
“Então, a gente ficou parado aí quatro anos, eu comecei a tocar sax, tocar os outros projetos, a gente fez aquele show com a Petit Mort lá, que foi massa. Acho que a gente tava meio que criando uma saudade assim, aí deu vontade de fazer, eu tava com vontade de tocar guitarra”, é o que fala Mauro sobre o evento que marca a retomada da banda para os palcos.
Para o show do Célula Cultural, a dupla está preparando um repertório inédito, apresentando novas canções e faixas dos primeiros álbuns que eles não costumavam tocar ao vivo. “Nesse show, a gente vai pegar algumas músicas dos álbuns antigos que a gente não tocava ao vivo, porque na época não fazia sentido, e agora a gente revisitou esses sons. E tem muita música que a gente fez na pandemia, algumas músicas que iam entrar no Nekomata e a gente tirou. Então a gente tá pegando várias, tem umas que saíram durante os ensaios agora.”
Depois desse show, a ideia dos irmãos é retomar os palcos antes de começar a produção de um novo projeto. Mas enquanto as ideias para o novo trabalho da Muñoz ainda vão sendo gestadas, o negócio é conferir a dupla ao vivo. “Vai ser um show bem diferente do que era, do que sempre foi, a gente vai tocar muita música diferente”, finaliza Mauro.
A primeira data está aí: 13/09/2024 no Célula Cultural. E que venham muitas outras!



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