O Curiosólogo

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Emilia Carmona: uma voz coletiva

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Fotos: Felipe Maciel

Cantora e compositora com mais de 20 anos de atuação na cena musical de Florianópolis, Emilia prioriza as criações e manifestações em grupo, participando de diversos movimentos culturais da cidade em sua trajetória.

Por Renan Bernardi

Atualizado pela última vez: 10/07/2024, às 14h02.

Descobriram que Emilia Carmona cantava quando ela tinha uns 11 anos. “Eu tava fazendo catequese e lá a gente tinha uma parte que era aprender os cantos. E aí, pra fazer algum tipo de missa, alguém precisava de uma solista e a professora me escolheu pra solar. Foi a primeira vez que eu cantei para muitas pessoas”.

Isso já faz muito tempo. De lá pra cá, Emilia já dedicou mais de 20 anos de sua vida a cantar e a compor a cena musical florianopolitana de seu tempo. “Não sou de outro lugar que não seja Florianópolis, eu me considero muito manezinha”, me diz ela depois de explicar que só nasceu em Criciúma porque sua mãe queria ter a filha perto de sua mãe – a avó de Emília. “Com um mês eu já vim pra cá, morei na Trindade minha infância inteira”.

Descobriram que Emilia cantava quando ela tinha uns 11 anos, mas ela só descobriu bem depois. “Pra mim, aquilo ainda era só fazer um negócio da catequese, não tinha uma grande coisa, sabe?”. Depois disso, na hora de escolher uma atividade extracurricular em suas aulas no Colégio Coração de Jesus, ela decidiu pelo coral. “Mas foi porque todas minhas amigas foram pro coral”, diz ela que, mesmo já escolhida pela música, ainda não tinha escolhido diretamente por ela.

Envolvida com a dança desde criança, participando de grupos até hoje, foi por esse meio que Emilia justifica sua primeira relação musical. “Eu nunca tinha pedido pra fazer aula de música, por exemplo, mas eu sempre me interessei por dança. Acho que, no fundo, eu queria ser bailarina […] E a música veio nessa coisa de dançar, sabe? Porque você dança com música, né? E eu tinha muito interesse nos artistas pop que misturavam esse lance da música com a dança. Eu gostava muito do Michael Jackson, eu gostava muito do Prince, eu gostava da Madonna“.

Mas, por ter cantado na missa da catequese, os convites começaram a surgir: em outras missas, em eventos públicos (cantando o Hino Nacional em formaturas e corridas de kart e fórmula 1, onde recebeu seus primeiros cachês) e até para ser solista do coral do Coração de Jesus – aquele que ela se inscreveu só para estar junto das amigas. A primeira vez que subiu num palco “pra valer”, foi aos 13 anos, numa apresentação do coral no Teatro Álvaro de Carvalho (o TAC). Lá, ela solou “A Maça”, de Raul Seixas – o que não agradou muito as freiras do Colégio.

“Eu lembro que tinha uns festivais de música na cidade, no colégio, e eu comecei a participar por isso, porque eu era a menina que canta, todo mundo me convidava. Às vezes eu era a solista, e às vezes eu era só a backing vocal. Pra mim era tudo muito divertido, então eu me jogava nas coisas”.

Emilia Carmona. Foto: Felipe Maciel

“Ali pelos 15 anos eu já comecei a entender que era isso, né? Tipo assim: é música! Aí eu já comecei a ir atrás dos meus gostos, comecei a escutar umas cantoras referência. Pra mim já virou uma coisa, tipo: ‘eu vou cantar, então preciso encontrar minha voz’. Aí eu queria fazer aula de música, mas os meus pais eram meio contra isso. Por mais que meu pai me levava pra cantar o Hino Nacional, ele não curtia muito essa coisa, né? Eles até hoje não curtem muito, mas eles já aceitam. Aí começou uns rolê de ter banda, isso ainda adolescente, eu tava na escola. Lembro que tinha uma banda de reggae que eu fui cantar. E quando eu ia cantar em algum bar ou festa na UFSC [n.e: Universidade Federal de Santa Catarina] – imagina: eu tinha 15 anos! aí eu tinha que fugir, sabe? Tipo: ‘mãe, vou dormir na casa da fulana’, falava isso pra vir fazer esses rolês.”

Quando Emilia tinha 18 anos, ela formou sua primeira banda com Chico Abreu – baixista, amigo e parceiro musical dela até hoje. Nesse período, a cantora começava a entender seus gostos, a aprender com os outros músicos de sua geração e a impor a sua relevância no cenário.

No começo dos anos 2000, já por volta de seus 20 anos, Emilia, Chico e outros amigos formam a MaryBlack, banda influenciada pelo movimento do hip hop e R&B do final dos anos 90.  Além deles, outros importante nomes da música catarinense formaram esse grupo.“Tinha o batera, que hoje toca com o Dazaranha, que é o João Basañez; o Samuel Scaini, que é um tecladista que não tá mais na ativa; o Alexandre Tiozão, que mudou completamente de vida; e vocalistas éramos em 3, tá? Era o Renato NB, que é rapper, mas agora é do samba – ele estudou muito música e virou um cara do samba e toca até hoje. Fábio Melo, que hoje em dia é um saxofonista cabeçudo, todo mundo que toca muito em Florianópolis chama o Fábio pra tocar – mas antes ele fazia rap com a gente! – e eu. E teve um momento que teve até um DJ, o Hurakán.

A sonoridade adotada pela MaryBlack vai muito de encontro com a popularidade de artistas que faziam sucesso tanto lá fora, como The Roots e Lauryn Hill, quanto no Brasil: Negra Li, Planet Hemp, etc. Essa popularidade também foi realidade para os catarinenses, que tocaram com muita frequência no Estado em eventos diversos.

MaryBlack ao vivo no Revellion da Gente de 2004, em Florianópolis-SC.

Registrando o seu trabalho autoral, a MaryBlack lança um disco em 2004, gravado no estúdio Magic Place e produzido por Renato Pimentel. “Eu lembro que o Renato fazia o seguinte comentário – a gente ia gravando as coisas, né? as camadas – e ele dizia: ‘gente, que que vocês vão fazer? Que eu não tô entendendo nada que vocês vão fazer!’. Porque acho que ele era muito do metal, né? E muito do instrumental também. E a gente vinha com aquela coisa de sample e frases curtas que se repetiam toda hora e, quando a gente botava as letras, era tudo meio falado – a cabeça dele deu um nó! Mas foi muito legal, ele acolheu muito a gente no processo. E a gente tem orgulho daquele disco, porque é um trabalho que a gente tirou de dentro da gente, sabe? São músicas que a gente fez juntos e que a gente tirou do nada”.

Depois de cerca de seis anos de estrada, a MaryBlack acaba quando Emilia estava se formando em Comunicação pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). Ela que vinha desgostosa da faculdade, queria acabar com isso o quanto antes. Porém, no último ano do curso, encontra um professor de cinema que a instiga a pesquisar o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso: um estudo da estética das canções de Caetano Veloso no disco Tropicalia Ou Panis Et Circensis, de 1968, puxando ganchos de referências que vinham de Picasso e suas pinturas cheias de colagens. “Eu lembro que eu fiquei muito empolgada com isso, porque foi a primeira vez que um professor me incentivou a estudar aquilo que eu realmente tava muito afim, que era isso: eu queria estudar todos os movimentos estéticos de música que já teve no Brasil”.

A banda acabando nesse último ano de faculdade, onde Emilia enfim estava empolgada com o curso, pareceu fazer mais sentido para ela no momento. “Eu tava me formando na faculdade e tava no processo de fazer o TCC, né? Aí eu tava muito nessa, tipo: ‘vai ser bom então que a banda acabou e eu vou poder me formar, eu vou poder ver o que vou fazer da minha vida e tal. Eu tava muito nessa de respirar um pouco, porque foram uns cinco ou seis anos de muita estrada – e a gente tinha 20 anos, cara! A gente se enfiava nuns ônibus e ia tocar no interior do Estado, era muita loucura. Às vezes eu passava de sexta a domingo fora de casa, sabe? Naquela coisa de dormir no ônibus ou dormir num hotel fuleiro. Tinha noite que começava às três da manhã! Era doido. Eu fico pensando: coitada da minha mãe! Imagina tua filha de 20 anos sai com um monte de cara dentro de um ônibus e vai, né?”

Fotos de arquivo de Emilia Carmona com a banda MaryBlack.

“E aí, de repente, surgiu um convite do Tijuquera, que é uma banda daqui. Eles tavam gravando um disco, que era terceiro ou quarto da carreira deles, já estavam no estúdio, aqui em Florianópolis mesmo, e precisavam de alguém pra fazer os backing vocals e que ajudasse a compor e a gravar. Aí eu achei bom, porque era um jeito de eu participar de alguma coisa musical sem ter tanta responsa.”

Só que, quem é responsa, chama responsa. Depois de gravar o disco Quem Quiser, É Isso Aí…, de 2006, foi convidada para participar da turnê de lançamento do álbum e acabou ficando na banda até o lançamento de Tijuqueira Rocksteady, de 2009, que foi gravado no Rio de Janeiro.

Enquanto atuava como backing vocal da Tijuqueira, Emilia também participou de trabalhos como o álbum Brasil, do projeto Wax Poetic, encabeçado por Ilhan Ersahin. Quando perguntei pra ela como foi esse rolê, ela me disse que “em 2005 Ilhan fez o Nublu South, uma versão do Nublu NY em Floripa, que era ali naquela mansão no topo do Morro da Lagoa. O Ilhan é casado com a tia de uma grande amiga minha, vem passar férias em Floripa desde que sou muito menina – e ele ama eu e o Chico. O Chico também é amigo dessa amiga. E o Chico também tá nesse disco do Wax Poetic!”

Também nesse meio tempo, participou do álbum Laje, Violão e Vinho, junto com Rodrigo Burigo (o “Fucinho”) e outros amigos que formavam o grupo Imaginários.

Além dos trabalhos autorais, nesse período Emilia também cantava no R5, um projeto com canções de Roberto Carlos em versões alternativas. “Lembra que tinha uma época em que todo mundo era indie? Todo mundo escutava rockzinho inglês? Então a gente pegou e fez uma banda com as músicas do Roberto Carlos versão indie, tá ligado? E era um sucesso! a gente tocou muito no interior do Estado”.

Foto: Felipe Maciel

“Depois, cara…eu entrei num grande bode. Eu lembro que eu me separei de uma relação bem longa e eu tava muito nessa, tipo: ‘tá…e aí? Será que eu vou seguir cantando? Será que eu não vou?’ Fiquei acho que uns anos sem projeto nenhum, nem tinha muito interesse assim, sabe? E eu lembro que foi nessa época que o Chico montou os Skrotes também! E aí eu ia muito com ele nas coisas, tanto nos ensaios, a gente sempre foi muito amigo, aí ele me mandava as coisas que eles gravavam, ficava muito nessa de ouvir o que eles tavam fazendo. E eles tinham essa pegada de entortar as coisas, né? E eu achava muito legal. E era uma época que o instrumental tava bombando, tinha uma cena instrumental no Brasil, e eu me lembro que eu tava muito nessa de ‘pô, qual é o lugar da voz? Qual é o lugar das minas?’ Tinha a Pitty, que era muito legal, mas e as outras, né? Eu lembro que depois começou a surgir algumas coisas, veio a Tulipa Ruiz, que eu fiquei muito impressionada com o trabalho, a Céu também”.

E, nesse começo dos anos 2010, por mais que novas referências começassem a aparecer no horizonte nacional, inserida na cena de Santa Catarina, Emilia via-se descontente. “Então eu tava muito nessa busca, fiquei uma cara só indo atrás do que os Skrotes tavam fazendo, que era muito inspirador, e eu achava o resto tudo muito chato”.

Mesmo sem projetos musicais, ela continuou pensando e pesquisando o que seria o seu jeito de cantar. Frequentava a cena de jazz que se intensificava na cidade em bares como o Black Swan, gostava daquilo, mas se questionava – e, às vezes, também questionava os próprios jazzistas: “mas e a música popular? E a música da América?”

Por volta desses anos, conhece o Metá Metá e se admira com o trabalho de Juçara Marçal. Quando escutou o álbum MetaL MetaL, de 2012, diz ter pensando que aquilo era “um jeito completamente diferente de cantar”, uma pesquisa mais “corporal” do canto, mais pé no chão – e em chãos de terreiro. Aquilo torna-se um caminho no horizonte.

Outro foi a pedagogia vocal, que começou a fazer ali por 2017. Além de aprender mais sobre sua voz, como sua filha estava com dois anos na época, isso também a ajudou a sair do período puerpério, permitindo que ela se envolvesse com a música sem precisar sair à noite.

Emilia Carmona e Renan Bernardi. Foto: Felipe Maciel

Esse período de recesso na cena musical de Florianópolis muda quando Emilia vê um vídeo de Diogo Costa ensaiando com Los Desterros – na época, ainda uma banda instrumental.

Filha de pai peruano, Emilia queria se aproximar “daquilo que tá na minha raiz, sabe? Aí eu lembro que eu vi essa galera do Los Desterros tocando e fiquei: cara, é isso! A cumbia, a lambada, a guitarrada. Esse rolê que, no fundo, tem a ver com as coisas americanas, mas vai pra outro lugar, um lugar de apropriação, um lugar de resgate de identidade, exaltação daquilo que você já foi, daquilo que você é, daquilo que você quer ser. E aquilo me pegou muito forte. […] Eu tava atrás disso, dessa linguagem: eu quero falar espanhol, quero que meu pai vá ver meu show e ache legal, sabe? Que minhas tias lá do Peru entendam que eu sou cantora”.

“Eu queria muito encontrar um lugar que fosse o meu lugar de cantar. E essas canções, as cumbias – e o próprio espanhol – tem um lugar de cantar, no corpo, que é diferente. Essa coisa de falar o espanhol já é mais anasalado, você usa mais o palato, você joga a voz em outro lugar. Eu queria muito encontrar esse lugar de cantar, sabe? E aquilo ali foi, pra mim, a porta de entrada”.

De um primeiro convite para cantar em uma apresentação para virar cantora oficial da banda parece que foi bem rápido. Nesse mesmo período de transformação, Los Desterros ainda perde o seu baixista, e como Diogo estava tocando com Chico Abreu no Skrotes, acabou convidando-o para o time. “Faz tempo que eu não tenho uma banda com a Emilia!” Chico teria dito. E, desde então, a banda continua fazendo shows frequentes.

Como descendente de peruanos, Emilia viu no Los Desterros mais do que um lugar de como cantar, mas também uma identificação histórica, conceitual e ideológica com esse repertório. “Eu fiquei muito nessa de procurar minha raiz. E, nessa época também, acontece uma coisa importante na minha família: minha tia, irmã mais nova do meu pai, sempre foi rebelde. Ela foi a que saiu do Peru, que foi morar na Espanha, depois ela volta pro Peru. E quando ela volta, volta muito a fim de resgatar a história da família, muito numa gana de saber quem somos, né? Então eu começo a procurar ela porque sei que ela tá fazendo e isso e ‘tia, eu quero saber tudo!’ e ela me conta histórias assim, muito loucas da família! E que tem a ver com a colonização da América: vem alguém lá da Espanha e toma a terra, toma as mulheres e faz filhos e aquela coisa vai gerando”.

Entender mais sobre a cultura da América Latina através de sua própria família gerou uma identificação enorme em Emilia – o que foi muito pertinente para quem estava cantando em uma banda que buscava, através da força da música, mostrar que as forças repressoras que colonizaram nosso continente continuavam atuando por aqui. “2018, esse ano que Los Desterros se firma, também é esse ano de Bolsonaro, depois vem pandemia, tudo acontece meio junto”.

Foto: Felipe Maciel

Desde suas primeiras experiências com o coral, Emilia sempre atuou na música dentro de grupos. Com a chegada da pandemia e a impossibilidade disso, sai o EP LaMachi, seu único trabalho solo até então.

Produzido por Mateus Romero de maneira híbrida entre virtual e presencial, o EP conta com três faixas: “Dengo”, “Janainoyá” e “Encantaria”, onde a cantora também se mostra compositora.  “Acho que esse lugar de compositora, esse lugar de ser a cantora, Emilia Carmona, pra mim é até esquisito falar isso, sabe? É muito nebuloso. Eu sempre fiz parte de grupos, eu sempre me vi inserida dentro dos coletivos, eu gosto desse lugar, eu trabalho muito bem desse jeito. Eu sou uma pessoa que até tem um potencial de liderança, mas eu trabalho muito melhor na horizontalidade das coisas”.

Embora deslocada nesse lugar da carreira solo, Emilia entende que o trabalho foi positivo para ajuda-la a passar pelo momento pandêmico. “Quando eu olho pra ele vejo que foi muito uma maneira de eu me conectar de novo com o lance da música, de eu poder mostrar pras pessoas: ‘ó! Eu estou fazendo música ainda! Eu estou nesse lugar’, muito mais do que apresentar alguma obra minha – embora às vezes eu ache ele bem conceitual, não precisava tanto, podia ser mais simples”.

“Eu nunca tinha encabeçado nada, então eu era muito insegura com aquilo: vou cantar como? E aí a gente experimentava, Mateus mandava pra eu ouvir e eu ‘não, não gostei do timbre da voz, quero outro lugar’, sabe? Acho que foi bem importante pra eu criar mais coragem, mas acho que aquilo ali ainda é um lugar bem experimental meu, não é um lugar definido”.

Além de afirmar seu lugar na música, o LaMachi também ajudou Emilia a continuar sua pesquisa iniciada com Los Desterros. Por mais que, sonoramente, o álbum se distancie um pouco da proposta latina, o próprio nome do EP remete a esse universo. “La Machi é como se chamam as curandeiras chilenas do povo mapuche. E tem uma em específico, a Francisca Linconao, que ela tem uma causa muito forte lá no Chile. Ela foi perseguida e tal, é uma grande defensora das causas sociais. Eu lembro que eu tava lendo sobre ela na época e foi uma maneira de homenagear”.

Mas o lugar de compositora de Emilia não está restrito ao ser trabalho solo. No primeiro EP da Los Desterros, lançado em 2024, a faixa “Plaza Real” é de sua autoria. Mas aqui, influenciada pela dinâmica, estética e política do grupo, ela mesma entende a canção como coletiva.

“Quando a gente fez ‘Plaza Real’, eu acho que tava naquele processo: Bolsonaro não tinha ganho ainda, mas as pesquisas tavam apontando que ele ia ganhar. Aí tava naquela de ‘a gente vai ter que tomar as ruas de novo’ e tal. E tava rolando muita retaliação. Eu lembro que a gente fez um show com Los Desterros no antigo Taliesyn [n.e: bar clássico de Florianópolis que existia onde hoje funciona a Bugio Centro] e acho que já era a segunda vez que a polícia batia lá, mandava a gente parar de tocar e a noite acabava de um jeito horrível, no final a galera apanhando na rua, tava rolando muito isso. E a gente fazia um bailinho ali no Santa Mônica, num lugar que nem existe mais – já tem até um prédio no lugar – e polícia batia muito ali, a gente tinha que parar de tocar. Tava rolando aquela coisa da repressão e a gente tava meio ‘será que vai reprimir mesmo ou é só uma onda?’. E quando eu fiz ‘Plaza Real’, tava lendo um livro do [Eduardo] Galeano, ‘Memória do Fogo’, que falava muito sobre o período da conquista. E eu tava lendo também o ‘Calibã e a Bruxa’, da Silvia Federici. E uma coisa em comum que eu achei dos dois livros é que eles falavam das praças e da inquisição, a Silva muito no rolê da inquisição das bruxas e o Galeano demonstrando que as praças, que antes eram usadas pelos povos originários para suas celebrações e rituais de passagem, começou a ser usada pelos espanhóis para construir igrejas e pra execuções. Atahualpa foi executado em praça pública e totalmente desmembrado na frente do próprio filho, todas essas coisas horrorosas. E eu pensei que essa repressão em praça pública é um troço muito antigo, né? Tava com isso na cabeça e a letra de ‘Plaza Real’ veio todinha na minha cabeça assim, muito rápido. Aí eu cheguei no estúdio pro ensaio do Los Desterros e mostrei pro Emílio [Suarez, percussionista] e o Diogo – e os dois são muito do tambor, eles são desse rolê do afro. Eles já começaram a tocar um ijexá junto ali e a música fluiu muito. E eu penso isso: porque eu não tenho um domínio, não toco um instrumento de maneira magistral – entendo um pouco de piano e violão, mas não tenho essa capacidade harmônica. Aí o Emílio já veio com um baixo que podia ser assim e eles me ajudaram muito a construir a música, a finalizar. Então é aí que mora a riqueza da coisa pra mim”.

Embora lançado em 2024, o EP da Los Desterros já vem sendo construído desde 2018, assim como o seu nome: O Grandioso Bailinho da URSAL Vol. 1, que remete aos tempos de resistência anti-bolsonarista na noite florianopolitana. “O Gui Gouveia, que era dono da Cervejaria Sambaqui – que ficava ali no Santa Mônica, essas coisas, né? – era um botecão que rolava muita coisa massa. Aí ele quis que a gente fizesse essa noite latina, começou assim. Depois começaram as piadas da URSAL, né? Porque veio o Cabo Daciolo e começou a falar disso e a gente ficou, ‘mano, da onde ele tirou essa ideia?’, e daí o Gui falou que a gente era os representantes da URSAL e a gente ficou ‘pô, tudo a ver mesmo!’. E nessa época a gente encontrou a Ju Baratieri, que ela também faz uma festa aqui também, a Clandestino, e ela foi uma vez pro Uruguai e, quando ela voltou, ela disse pra gente disfarçar o URSAL dizendo que é União dos Ritmos e Sons da América Latina! aí pegou o nome”.

O EP conta com três regravações, escolhidas justamente pelo teor “URSAL” delas: “Silvando”, da banda peruana Los Riberenõs; “Primavera En La Selva”, dos americanos da Chica Libre, em que eles adicionaram um rap de Rodrigo Burigo (o parceiro de Emilia no Imaginários) chamado “Funk da Primavera Amazônica”; e “El Mayoral”,canção do também peruano Wilfredo Franco Laguna que já foi muito regravada justamente pela sua letra política. “Se você pega o texto do ‘El Mayoral’ é exatamente falando sobre o capitão do mato, né? Sob o ponto de vista de quem tá na senzala. Só que ela é uma música peruana, então é a realidade deles: o capitão do mato deles é o mayoral”.

Além de “Plaza Real”, o trabalho ainda conta com outra música autoral do grupo: “Maria Belén”, um candombe composto por Emilio Suarez. A faixa ainda contou com a participação especial do músico uruguaio Hugo Fatorusso. “Ele tem uma tradição muito forte no candombe, mas depois ele virou um ‘Skrotes’ lá do Uruguai, invertendo e torcendo tudo. Então tinha muito a ver, porque ele tinha uma pegada popular, mas ao mesmo tempo tinha essa coisa de subverter os ritmos tradicionais”. Inclusive, o áudio no final da faixa é justamente Hugo mandando Chico, que o tinha convidado a participar da música, agradecer “a tu hermana” – que, no caso, seria a própria Emilia.

Realizado no meio do ano de 2022, no estúdio Cacupê, de Diogo Costa, o EP teve suas bases gravadas ao vivo por Rafael Pfleger, que também foi responsável pela produção, mixagem e masterização do trabalho.

Logo antes do lançamento do primeiro single desse EP, Daniel Postal, que gravou as guitarras do trabalho, sai da banda. No lugar dele entrou Jeff Nefferkturu que, além das guitarras, toca também teclados e sintetizadores. Com essa nova formação, Emilia me disse que a banda está num processo de composição novo, já montando repertório para um próximo lançamento.

Los Desterros na formação atual. Foto: Renato Rezende

Outro projeto que Emilia vem desenvolvendo atualmente é o Padendê, que também começou lá antes da pandemia. “Era novembro de 2019. Eu lembro porque era aniversário do Sttar, que é um amigo meu, artista. Ele morava muito perto da minha casa lá no Porto da Lagoa e a gente queria cantar junto. Aí tem a Casa da Tita, lá no Rio Tavares, que é um lugar que rola um sarau na segunda-feira e umas apresentações na quinta. A gente tava indo bastante nesse sarau da segunda, eu e Sttar. A gente pegava o microfone, cantava as músicas, o Sttar tem o repertório dele, eu tinha o meu e tal. Mas a gente queria fazer alguma apresentação junto. Aí a gente resolveu juntar nosso repertório e chamamos o Mateus, né? o Romero, que é o nosso chaveirinho, e o Sttar falou que tinha um amigo, o Leo Arquimedes, que tocava violão e já tocava o repertório dele. Daí a gente se juntou e, cara, foi numa manhã e o Leo já pegou tudo!”

Do encontro de Emilia com Leo, eles descobrem muitas afinidades musicais, mas uma delas se destacou: o samba urbano, torto e moderno de São Paulo – terra natal do violonista. Metá Metá, Douglas Germano, etc: isso une a dupla em busca de tirar esse repertório e, nessas reuniões, Leo apresenta algumas de suas composições, que logo também são incluídas no set-list dos ensaios. Aí vem a pandemia.

Logo após gravar o seu EP solo, Emilia aproveita que Mateus Romero ainda estava botando pilha para ela gravar mais coisas e resolveu embarcar nessa com as composições do Leo. Escolheram três: “José Pereira”, “Farol de Abril” e “Baio de Aço”. Junto de Arquimedes, Gustavo Veiga e Thiago Castelli (outros dois paulistas) também assinam essas composições, que retratam influências de um samba bem de São Paulo. “Um samba que quase vem com cheiro de asfalto, né? Aí a gente escolheu algumas coisas disso, entramos no estúdio com o Mateus e gravamos o Padendê. Aí eu lembro que o Diogo [Costa] voltou de Recife, onde ele tava morando, e a gente precisava de um percussionista pras coisas que a gente tava gravando, chamamos ele, ele gostou e topou”.

Com a abertura dos bares em 2022, o grupo começou a fazer as suas primeiras performances em trio: Emília, Leo e Diogo. Ali já deu pra sentir que o repertório era também bem conhecido do público, o que ajudou a engrenar o projeto.

E logo a banda foi aumentando: Emilia conhecia o Mauro Fontoura (Muñoz, Infrasound Records) por ele ter produzido o álbum de Carolino em que ela participou. Como ele estava estudando saxofone e buscando um lugar para desenvolver, o Padendê virou esse espaço. Já Chico Assis, outro paulista, estudava samba e estava sem banda, então adorou assumir os baixos do projeto.

O EP, chamado Terceiras Estórias, foi lançado em 2023, mas as músicas foram gravadas em 2021, ainda antes dessa formação atual. Porém, com as constantes apresentações que o grupo vem fazendo, o entrosamento tem feito eles comporem juntos, e a intenção é que seja cada vez mais autoral. A tarefa agora parece ser fazer um “desmame” do repertório do samba paulista, pelo qual o grupo é reconhecido e, aos poucos, ir inserindo as canções próprias.

Mas é claro que relação que essa referência tem com o projeto continua parte fundamental dele – o próprio nome já o evidencia. “Porque antes a gente chamada de Especial Padê [n.e: Padê é o primeiro álbum lançado, em parceria, por Juçara Marçal e Kiko Dinucci em 2008], porque primeiro a gente fazia só aquelas músicas. Depois a gente foi jogando outras músicas de outros discos e vimos que precisava de um nome, porque Especial Padê não ia colar pra sempre, né? E aí fui eu até que cheguei com Padendê, porque eu pensei que isso significa algumas coisas: é a mistura de padê com dendê, e aí tem muito isso de trazer a mandioca daqui, dos indígenas, e o dendê vem da África; Padê também é uma gíria umbandista e de candomblé que tem a ver com o lance de você fazer o Padê, que é aquela farinha com dendê, pra oferecer pra Exu; E tem o lance de pá-den-dê, que acaba virando muito rítmico assim, sabe? Aí virou, ficou: Padendê”.

Formação atual do Padendê. Foto: Mauro Fontoura

Além de seus projetos com propostas artísticas mais definidas, Emilia ainda mantém o tom descompromissado de suas primeiras bandas em trabalhos como The Cringers, onde se reúne com amigos de longa data para tocar clássicos da música brasileira em bares da cidade.

Esse projeto permite que ela veja o universo do entretenimento em Florianópolis fora da sua bolha, percebendo outras nuances de sua cidade e entendendo melhor o lugar onde vive e expressa sua arte.

Hoje, com mais de 20 anos de atuação na cena musical florianopolitana, Emilia talvez já tenha encontrado um lugar mais definido para sua voz. Mas isso não é um ponto de chegada, mas sempre de partida: os projetos continuam, as ideias não param de surgir e ela ainda deseja ceder a sua voz aos coletivos em prol daquilo que busca e acredita.

Foto: Felipe Maciel

Uma resposta para “Emilia Carmona: uma voz coletiva”.

  1. Avatar de Skrotes: groovando contra a maré – O Curiosólogo

    […] para o formato; um álbum cheio de participações especiais, entre as quais eles citam Emilia Carmona e François Muleka, que já tocaram com eles em outras ocasiões (e também já apareceram aqui […]

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