O Curiosólogo

revista cultural caseira.
baseada em santa catarina, brasil.

Giovani Baffô: inteligência das ruas e poética das vielas

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Poeta e produtor cultural, Giovani aprendeu a fazer da rua o seu palco; de um guarda-chuva seu anfiteatro; e, de qualquer viela, um sarau.

Por Renan Bernardi

Atualizado pela última vez: 05/04/2024, às 09h24.

“Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia”

Giovani diz ter lido esse poema de Manuel Bandeira em um livro didático da escola onde estudava quando criança. Diz que foi ali pela 3ª ou 4ª série do Ensino Fundamental que a poesia começou a lhe interessar através de textos curtos e imagéticos.

Nascido e criado na favela do Morumbizinho – rua André Rias, Jardim Boa Vista, Zona Oeste de São Paulo, bairro do distrito do Butantã – é notável que “A Estrela” de Bandeira tenha luzido em sua vida vazia, pois é na poesia que, até hoje, Giovani brilha.

Sua casa ficava próxima da Distribuidora Nacional de Publicações (DINAP), o que foi essencial para o menino, apaixonado desde cedo pela leitura, ter seus primeiros contatos com esse universo. “Tinha muito caminhão de gibi, revista, livro que vinha tudo pra lá porque eles distribuíam pela Editora Abril e outras editoras. Então a molecada lá da favela roubava essas revistas pra revender pras bancas e, os gibis, como a galera não comprava muito, eles me davam. Então eu lia muito gibi: Marvel, DC, Turma da Mônica, Turma da Luluzinha, li gibis diversos.”

E foi cedo que os horizontes de Giovani foram se expandindo para além dos horizontes dos gibis – e do Morumbizinho. “Sempre fui um favelado normal, de torcida organizada, pixação, sempre trabalhei na rua como camelô, vendi muita coisa na rua – nunca tive emprego formal, né? Então vivi a rua. Tinha muitos irmãos, a família é grande, e a leitura sempre me acompanhou. A minha mãe foi importante nisso, porque ela descobriu que eu tinha uma predileção por leitura e, como ela era empregada doméstica, ela trazia os livros que os filhos das patroas delas liam, então eu li Caetano, li muita biografia, muita coisa, muita revista legal, interessante, porque minha mãe trazia. Então eu fui pegando muita informação, lia muito almanaque também, Almanaque Brasil. O meu irmão também tem uma questão importante, porque ele trabalhava num ferro velho, então chegava muito livro lá e ele trazia pra casa almanaques, a enciclopédia Barsa, romances, vinha muito livro pra casa e, como eu gostava de ler, eu indo lendo, não tinha uma – como que fala – uma inteligência de leitura, né? Eu lia tudo, não sabia as escolas literárias. Isso eu ainda não sabia.”

Passou a adolescência lendo e desenvolvendo outras atividades comuns aos jovens de sua comunidade, até que, no primeiro ano do colegial, conheceu o caminho que o levaria a se aprofundar na literatura. “Tinha uma professora, Esther, professora de história. Eu era aquele moleque piadista, sarrista, e então um dia ela disse ‘ô, seu Giovani: você me atrapalha pra caramba na minha aula, mas essas piadas que você faz aí, isso aí é inteligente! Essa sacanagem que tu tem é inteligente, chega aí – o que tu lê?’ Aí eu falei que lia Sidney Sheldon, que lia o Drummond, lia tudo que me vem, e era verdade: eu lia [Revista] Marie Claire, lia, não sabia o que era escola literária. Aí ela começou a me falar das escolas e não sei mais o que, e me apresentou os beatniks! Kerouac, Ginsberg, Corso, essa galera aí, tá ligado? Aí eu peguei e fiquei ‘táporra, muito loco isso aqui!’, a onda do jazz, né? Levar a frase até onde der, e falei ‘ah bicho, vou tentar inventar umas paradinha aí’. Eu tinha um diariozinho, um diário mesmo, escrevia diário, então depois começou a pintar um poema aqui, um poeminha ali e pá, comecei.”

Nessa época, Giovani já conhecia o pessoal da Poesia Maloqueirista, com quem faria muitas parcerias no futuro. Mas sua atuação como poeta não começou por aí. Não foi nem nesse tempo, nem nesse espaço.

“Isso eu comecei a fazer no Rio de Janeiro. Porque eu não tinha sido poeta em São Paulo ainda, eu virei poeta lá. Vou te contar a história: tinha uma amiga minha, que a gente era muito amigo assim, e a gente tinha meio que um relacionamento aberto, às vezes a gente se dava uns peguinha, mas não era nada compromissado, era só farra de amigo, tá ligado? Aí ela me chamou pra passar quatro dias em Parati. Ela disse que tinha virado hippie e tal, aí eu falei ‘ah, vamo aí! quatro dias, é carnaval, tô com dinheiro’. A gente foi, passou os quatro dias, e eu falei ‘e aí: vamo mete o pé?’ aí ela ‘não, não vou meter o pé mais, vou ser hippie agora’. E aí ‘como assim ser hippie? tá maluca? a gente saiu do bairro, coisa e tal, tu vai ficar aqui e eu vou voltar? não tem como, vamo lá! a gente volta pra casa, te deixo lá na tua casa, depois tu vai pra onde você quiser’ e ela falou ‘não, vou ficar aqui’. Aí eu fiquei naquela: sai com a pessoa de casa, você quer entregar a pessoa em casa. E ela não, ‘daqui eu vou pro Brasil inteiro’. Aí acabei ficando com ela, fui ficando com ela no rolê, fui ficando, até que meu dinheiro acabou. Pensei ‘ah mano, eu tenho uns poemas escritos, né? vou vender uns poeminha aqui’. E meus amigos poetas andava tudo duro, aí eu pensava que ia ficar duro igual os caras, ficar por aí rachando PF, vou ficar nessa? Fiquei nessa onda, pensando. Mas aí escrevi uns poeminhas, escrevia um poema só, queimava ele e colocava num guarda-chuva. Eu tinha vergonha de declamar, então fiz o guarda-chuva pra não precisar falar pra todo mundo, a galera primeiro lia. Depois a galera falou ‘tu tem que declamar teus poema, todo mundo declama’, aí eu comecei a falar debaixo do guarda-chuva, bem tímido assim, pra um, pra outro, aí fui gostando, a galera foi gostando, foi tendo feedback, ‘pô, você é bom!’, aí pô: eu sou bom, caralho! como assim? aí fui fazendo.”

“Teve um momento que a gente foi de Parati pra Angra, aí eu cansei desse negócio de hippie, só vai pra praia e tal, aí fiquei sabendo dos poetas do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), que era uma galera que mangueava livretos lá no Rio de Janeiro, aí eu falei ‘tu quer ficar em praia, beleza, e, se tu não vai mais voltar, não vou voltar também, vou dar meu rolê como poeta agora’. Peguei e fui dar um rolê como poeta, cheguei no Rio de Janeiro, conheci uma galera da poesia de rua carioca, e eles me ensinaram a fazer livreto: Nelsinho Neto, Felipe Araújo, Chapolin, né? Mia Vieira, uma galera de poesia de rua. Eles me abraçaram, me ensinaram a manguear os livretos e isso começou a me dar um dinheiro. Aluguei um hotel e fui ficando nessa. E, tipo assim, eu mangueava um livreto com sete poemas, dava três meses eu enjoava daquele livreto, aí fazia outro com mais sete.”

“E aí chegou um dia que teve um congresso na UNB (Universidade de Brasília), um congresso da UBE (União Brasileira de Escritores). Fui pra Brasília, fiquei uns dias lá. Aí, de Brasília, eu tava voltando pro Rio de Janeiro, mas o ônibus passou em BH e eu falei ‘quer saber? vou descer aqui, vou ficar em BH’. Tinha um poeta, que era o fundador do Coletivo [Poesia Maloqueirista] e eu não conhecia ele – Renato Limão, grande poeta, é até falecido já – aí falei ‘ah vou trombar o Limão aqui em BH, vou trocar uma ideia com ele’. Aí desci do busão e fiquei em BH mangueando. Fiquei seis meses em BH, depois voltei pro Rio de Janeiro, fiquei mais seis meses, depois voltei pra São Paulo, fiquei mais uns meses pra resolver umas paradas, depois voltei pro Rio de Janeiro. Fiquei nesse rolê como poeta uma cota, até que voltei pra São Paulo e publiquei meu primeiro livro.”

*

Nessa altura da entrevista, Giovani achou injusto falar de poesia sem tomar cerveja, então foi atrás de uma. Sendo assim, também acho justo interromper a narrativa para dar o contexto dessa nossa conversa.

Em um fim de tarde de terça-feira, estávamos sentados no Mercado Público de Florianópolis, onde Giovani mora desde 2020. “A gente veio porque tinha uma rede de apoio, né? Eu tenho duas filhas. Eu já vinha pra Florianópolis antes, mas frequentava como turista. Tinha amigos, mas mais família, né? a cunhada e a prima, que é quase irmã da minha mulher.”

Assim como foi em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, aqui em Florianópolis Giovani também vive vendendo coisas na rua. Naquele dia, eu e Felipe Maciel o encontramos embaixo do relógio próximo ao Terminal Integrado do Centro (TICEN), anunciando o preço promocional de suas sedas: Duas por $5, cinco por $10. Viemos andando até o Mercado falando sobre como eu o conheci: em um evento de poesia promovido por Demétrio Panarotto, nosso amigo em comum; e sobre como surgiu a ideia de entrevista-lo para O Curiosólogo: dica certeira do Gabriel, outro amigo em comum.

Giovani Baffô é o seu nome artístico, que surge num misto de zombaria, herança, ancestralidade e suposição. “Na verdade, meu irmão tinha um apelido, lá na quebrada, de Bafo. Aí teve o tempo que eu fiquei sendo o Bafinho, depois começaram a me chamar de Bafo também e, um dia, um cara me falou ‘mano, Baffô, em iorubá, é Festa da Chegada, põe um chapeuzinho aí no seu nome, pô! vai dar mó onda’, aí falei ‘demorô, vo colocá’, aí ficou legal, parece uma parada em francês, mas não, é iorubá. Eu nem fui atrás pra saber se era verdade mesmo, só coloquei, nem fui lá no dicionário pra ver se tava certo mesmo, eu achei que tava certo e coloquei lá, aí ficou.”

“E eu tinha isso do guarda-chuva também, que era O Menor Sarau do Mundo, que é uma performance que eu faço embaixo de um guarda-chuva, como se ele fosse um teatro. Eu coloco o guarda-chuva, falo três poeminhas ali e tal, faço uma onda, tirando o cara da cidade e trazendo ele prum ‘anfiteatro’ e tal. Aí ficou também o guarda-chuva em referência ao acento circunflexo do nome.”

Após suas andanças por outras cidades, Baffô retorna para São Paulo em 2010, onde (e quando) seus amigos da Poesia Maloqueirista haviam ganho um edital, o que possibilitou a publicação de seu primeiro livro: Delitos e Deleites, reunindo poesias que ele selecionou desses tempos na estrada e que já haviam feito parte de seus livretos. “Desse eu vendi cinco mil exemplares na rua, né? E só não vendi mais porque cansei dele.”

Também editado pela Maloqueirista, Pequenos Golpes saiu em 2012, mostrando um Giovani mais voltado para o formato de haicais ocidentais, influenciado por caras como Paulo Leminski, Millôr Fernandes e Mário Quintana.

No ano seguinte ele publica o Ponte Pálpebra, seu terceiro livro, com edição do Selo do Burro, também de São Paulo. Nesse, percebe-se uma linguagem mais característica daquilo que Baffô vem fazendo desde então. “Aí eu já tinha conhecido Roberto Piva, o Cláudio Willer, Guilherme Zarvos, os poetas mais experimentais. No Ponte Pálpebra ainda tem um resquício de haicai, mas eu já trago uma coisa mais experimental, saio um pouco dos haicais depois de ter ficado uns quatro anos naquilo, porque conheci outros poetas, fui dando rolê, adquirindo outras coisas dos beatniks, dos poetas do Rio: Cacaso, o Charles Peixoto, galera da Nuvem Cigana. Wally Salomão também.”

“Depois disso eu fui convidado pra Feira do Livro de Buenos Aires, acho que em 2013 também, e participei da antologia, né? a Antologia da Tinta Limón, que é uma editora argentina que traduziu os poetas paulistanos, da periferia de São Paulo, bem massa, da primeira e segunda geração. Eu tô na segunda, que tem Sérgio Vaz, Serginho Poeta, o Binho, a Dinha. A Prefeitura de São Paulo e a Prefeitura de Buenos Aires fizeram essa parada pra Feira do Livro de Buenos Aires, então levou os poetas de periferia de São Paulo que tavam em alta, com o [Ponto de Cultura Cidade] Perifa e tal. Aí os meus poemas que foram pra antologia são dos três primeiros livros e uns dos livretos que a galera não conhecia.”

“Depois desse, veio A Maior Dor Do Sol, que foi pela Cozinha Experimental, que é uma plaquete, toda artesanal e tal, os caras são muito cuidadosos com livros, né? a Cozinha Experimental é uma editora muito cuidadosa, artesanal assim, ficou bem bonito o livro. Desse saiu só 60 exemplares, Coleção Perecíveis, né?”

Já em 2016, Baffô faz um lançamento diferenciado em sua carreira: Sonho de Bicho, um livro infantil, inspirado no nascimento de sua primeira filha e feito em parceria com sua companheira Caru Laet. “Quando minha filha tava pra nascer, eu pensei em fazer um infantil pra ela, a Mafalda. A minha mulher é psicopedagoga, né? Aí a gente fez um livro pra primeira leitura, primeiras noções de rima, com uma aproximação com a aventura da criança e tal.”

Após falarmos sobre essa primeira fase de suas publicações, pedi pro Giovani comentar sobre o projeto Jazz Na Kombi, que ele promove desde 2014. Mas, para falar disso, ele teve que falar também sobre outros projetos em que esteve envolvido.

“Nós tava meio duro, naquela crise da vida, aí compramos uma kombi pra vender cerveja na rua e tal – e também pra apoiar o outro projeto que a gente tinha, que era o Vie La En Close. A gente fazia a Vielada Cultural, que é tipo uma Virada Cultural na favela, sacô? Ocupava vários lugares da favela como uma réplica da Virada Cultural, mas menor, né? Nas vilas, dois palcos em cima – um na pracinha, outro palco embaixo. Palco pequeno, em cima, em baixo, trazia 10 horas de programação, trazia palhaços, grafiteiros, poetas, músicos.”

“E daí, como a gente já fazia isso, tinha muito equipamento, e a Kombi levava, mas ela é decorativa também, é bem pintadinha, tem um grafite nela, então é bem bonita. Um dia a gente foi pedir uma perua emprestada de um amigo pra levar os jogos que a gente pegou do Coletivo pra Vielada, então de manhã fomos buscar os jogos e depois a gente esqueceu, ficamos bebendo e, de noite, a gente pediu ‘mano, empresta a Kombi pra gente levar os jogos de novo!’, aí ele falou ‘mano, eu empresto, mas eu tô vendendo a Kombi’, aí eu pedi quanto e ele disse ‘seis mil’, ‘então nós vamo compra de você’. Isso pra levar os jogos, vender cerveja, enfim, compramos a Kombi. Só que eu tinha comprado muitos discos de jazz num sebo, sei lá, tava 20 cds de jazz por oito reais, aí eu comprei os 20, porque eu ouvia muito jazz em casa, comecei a ouvir muito jazz. Como compramos a Kombi, comecei a ouvir muito jazz na Kombi, tá ligado? Aí eu dia, tava andando na Kombi assim e tal, ouvindo jazz, aí eu pensei ‘por que a gente não faz um negócio chamado Jazz na Kombi?’, tive esse insight. Aí a galera topou, começamos a fazer em São Paulo e foi um sucesso, ganhou a cidade, ficou com muito público e tal e começou a me tomar muito tempo e a me dar uma grana também, o que acabou me distraindo um pouco da poesia.”

“A gente ia numa praça, abria a kombi, botava quatro banda na praça, fazia evento pelo Facebook ainda, convidava. No começo era só som mesmo, menorzinho, botava uma bolinha pra galera e pá – porque a gente não conhecia banda de jazz ainda, né? – aí conhecemos a primeira banda que, por acaso, era vizinha da gente, chamada Chás na Mala, hoje ela não existe mais, mas era uma banda bem legal. Isso foi em 2014, quase 15. Aí começamos a fazer muita rua, aí o Sesc começou a gostar, aí começou a rolar no Sesc, evento de Prefeitura, em alguns clubes. Tive que abrir empresa, começar a dar nota e tal. Aí minha filha nasceu, e aí a poesia ficou um pouco difícil pra mim.”

Além do Jazz Na Kombi e do Vie La En Close, a Vielada Cultural também envolvia outros projetos promovidos por Baffô, como o Sarau da Viela, onde poetas declamam em uma das escadas do Morumbizinho, e também o Núcleo de Inteligência Periférica. “Sempre que a gente fazia o Vielada, tem o Núcleo, que é tipo assim: são simpósios sobre coisas sérias inerentes a cidade, inerente ao país. A gente chamava gente da USP (Universidade de São Paulo), professores, filósofos, sociólogos, gente com estrada mesmo. Às vezes pixadores que também sabiam do assunto ali, e daí a gente fazia, por exemplo, na crise da água, a gente chamava uma galera da prefeitura, galera da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e fizemos uma mesa sobre a crise da água em São Paulo, por conta da seca que teve em São Paulo, o volume morto e tal. Quando o Dória fez aquela lei da pixação, a gente chamou a primeira pixadora que respondeu a lei, chamamos o Mia, que é um dos pixadores mais ilustrados de São Paulo agora, que ele faz aqueles pixos com extintor, sabe? Levamos ele e tal pra falar sobre a pixação. Tem vários vídeos na internet com os simpósios. Então a gente chamava coisas sérias pro debate, mas numa favela, numa mesa crua assim, sem lençol sem nada, uma Heineken na mão, microfone lá, e eu lá perguntando. Era eu ou o Sócrates, que é um professor, mediando, sacô? Ficava mediando sempre que rolava essa Vielada, mesa na rua, sempre gravado, com três debatedores e um provocador.”

Devido ao Jazz na Kombi, pedi ao Giovani qual era a sua relação com a música. Ele me disse que, por mais que tenha uma admiração muito grande pelo jazz e pela canção brasileira, a música “não sorriu” pra ele. Porém, por mais que tenha evitado esse caminho – nunca quis nem mesmo ser rapper, algo que sempre o foi sugerido pelos amigos da favela por causa de sua habilidade com as rimas – a música acabou encontrando com ele pelas ruas. E em grande estilo!

“Sabe a Galeria do Rock, em São Paulo? Tu sabe aqueles caras que ficam lá na frente – ‘ô, quer comprar uma camisa?’, então, eu fui aquele cara lá, bicho, fiquei 13 anos lá na porta. Nesses 13 anos, eu vendia coisa, publiquei meu primeiro livro, vendia lá, ganhava um dinheiro, dava um dinheiro legal mesmo. Aí, um desses dias, eu tava lá na rua, e tinha um amigo meu que era rapper, e ele sempre ia pros Estados Unidos. Ele tinha uma loja que vendia coisa importada, comprava boné nos Estados Unidos, tênis, e vendia aqui. Eu tava lá um dia, vendendo, ele sabia que eu era poeta, tinha publicado meu livro já, e um dia o Criolo entrou na loja dele e ele me falou ‘ô, Giovani! o Criolo tá lá na loja lá, mano! Tá com seu livro aí? vamo lá mostrar pra ele? ele gostou de você, quer te conhecer.”

“Aí eu fui lá, conheci o Criolo e tal, ele pediu quanto era o livro, aí na época era 10 reais o livro, eu pagava dois na gráfica, era barato publicar livro ainda. Aí ele comprou o livro, gostou e gravou um poema do meu livro. Isso foi na rua. Aí até subi no palco com ele. Pô, eu virei parceiro do Tony Allen! sabe o Tony Allen? Então, tu vai ver lá no bagulho tá: Tony Allen, Criolo, Giovani Baffô.”

A canção é “Vai Ser Assim”, que Criolo compôs para o álbum Violar, do grupo Instituto. Nela, além do rap de Criolo e das baterias de Tony Allen, estão os versão de Baffô:

“Em casa de menino de rua

O último a dormir apaga a lua”

Poemas de Giovani também estão presentes em duas canções de Saulo Duarte, outro músico que ele acabou conhecendo pelas ruas de São Paulo. “Ele namorava uma amiga minha, a gente se conheceu, aí ele me provocou “você é poeta mesmo? vamo gravar alguma coisa, me manda, vamo grava”. Aí minha namorada tava morando perto da namorada dele, eu tava na casa dela e ele na casa dela também – e as duas namoradas não eram vizinhas, mas dava pra ir apé, tipo daqui até lá nos bares da Hercílio. Aí eu indo de uma da casa pra outra eu fiz a letrinha, no caminho, comecei a fazer na rua e lá no apartamento eu fiz a outra parte.”

“Angorá” foi lançada em 2016 no álbum Cine Ruptura, assinado por Saulo Duarte e a Unidade. “É muito linda a música, uma canção muito bonita, ele disse que ficou a mais bonita do disco.”

“Bagdá sem perna

Calcutá quadriculada

Angorá

Anchovas e guarda-chuvas

Balão vermelho tingindo pele

Suor e sombra

Onde os gatos guardam moedas e madrugadas

Quando a vida pede um raio mais azul”

A outra canção dessa parceria é “Tapume”, lançada no álbum Avante Delírio, de 2018. Essa surgiu da maneira, acaso e velocidade que só as redes sociais nos proporcionam. “Cara, eu escrevi esse poema, desceu em 20 minutos. Desceu muito tranquilo, foi tão tranquilo que eu escrevi no corpo do Facebook, sabe qual é? Eu tava com o Facebook aberto e resolvi escrever na hora, aí o negócio ficou tão bom que eu publiquei o poema pra salvar, pra não perder ele, aí depois eu copiei e mandei pro arquivo que eu colocava lá e tal. Depois eu esqueci de apagar do Facebook, esqueci. Fiquei feliz, escrevi um poema bom, legal, aí voltei pra fumar mais um e pá, não tinha o que fazer, tava em casa, minha mulher tava trabalhando, aí fiquei uns 20 minutos longe do computador. Depois, quando eu voltei, o cara tinha me mandado uma mensagem ‘mano, eu tenho uma melodia que dá nesse poema certinho, broder! e só tá faltando uma música pra ir pro meu disco, vou colocar essa com esse poema’. Então, quer dizer, em uma hora o poema nasceu e entrou num disco, achei muito legal.”

“Tapumes, pés de mamonas

Cortinas de acontecimentos sublimes

A queda de um anjo ou pipa

Molduras esqueléticas

Ex-motocicletas

Assassinos

Amantes e balões

Girassol

Alumínio

Lua sangrando

Chassi de Opala

Cemitério de entulhos e bichanos

Um terreno baldio se faz portal

Suporta a cidade que não sabe ser vazia”

O último lançamento de Baffô foi o livro Voo Absoluto, publicado em 2020 através de um prêmio literário da ProAc chamado Editais Expresso Lab. “Uma editora que me procurou, pediu se eu tinha um livro pronto e eu tinha, daí fui ver, porque essa galera nunca me procurou antes, por que que tá me procurando, né? fui olhar e tinha esse edital aberto, que é o de Trajetória, aí mandei a parada e ganhei 50 mil.”

Foi esse prêmio, inclusive, que possibilitou a sua vinda para Florianópolis. “A editora era de São Paulo, só que eu frequentava Florianópolis porque minha cunhada mora aqui, então a gente vinha e tal. E como eu tava no apartamento lá trancado, pedi pra minha mulher se ela queria vir morar aqui, ela quis, então a gente veio.”

*

Falando nisso, aqui em Florianópolis, nessa altura da conversa, nossa cerveja acabou. “Pô, os caras vendem a cerveja e não oferecem outra, que loucura…”, “deixa que eu vou lá”, disse o Felipe, “é ali no verdinho?”, “é, ali no verdinho.”

Morando na capital catarinense há quatro anos, Baffô tem tentado movimentar seus projetos por aqui, mas sem o mesmo sucesso. O Jazz na Kombi, por exemplo, “a gente trouxe pra cá, mas não conseguimos fazer a onda. Aqui é uma cidade muito protegida, né? Quem tem o jazz, tem só o jazz mesmo, não vai abrir pra ninguém; quem tem o teatro, tem o teatro; quem tem o cinema… Tá ligado? Cidade pequena, província. A gente tentou e não conseguimos, aí voltamos pra São Paulo com ela. Lá continua rolando.”

O que ele tem conseguido fazer, muito raramente, é a Noite dos Raros. “Era um sarau lá em casa, era pra ser até hoje, mas a gente decidiu não fazer porque eu mudei de casa e minha casa é muito pequena agora, né? Aluguel subiu e tal. Tô morando no Campeche, eu morava no Rio Tavares, fui pro Campeche, ali na parte central. Aluguei uma casa menor pra conseguir pagar o aluguel, porque tava foda. Quase três conto de aluguel eu não consegui não.”

“A Noite dos Raros é um sarau multi-artístico, né? Passa cinema, vai grafiteiros, vai poeta, vai gente de teatro, vai pintor, a gente tem performance também, sabe qual é? Não precisa nem ser amigo, sendo artista e tando no rolê a gente faz. Não tem data nem nada, geralmente é quando tem um artista amigo que chega e diz ‘vamo faze uma Noite dos Raros‘, se tem alguém lançando livro e tal. E quando tem um espaço também, né? O espaço é importante. Eu já tive um sarau num bar aqui, que foi o Sarau do Araçá, lá na Lagoa da Conceição, a gente fez um sarau nas quartas-feiras, mas não teve quórum assim, mas a galera abriu o espaço e foi bem legal.”

Mesmo com as dificuldades de viver numa cidade bem mais provinciana do que a São Paulo onde cresceu, Giovani continua escrevendo e declamando por Florianópolis. Perguntei pra ele sobre a importância da prática oral, de levar a poesia para além da escrita. “É porque a poesia no papel, a mancha gráfica, né? Ela precisa de uma pessoa solitária ali que queira isso. Dificilmente vai cair um livro no colo dele, aberto, e ele vai ler um poema. Agora, declamando até os distraídos conseguem ouvir o seu poema e tal. Por exemplo: tu já me viu declamando e eu não sabia de você, sabe qual é? É qual uma paisagem, a sonoridade da poética, o poema vira uma paisagem mesmo, ele tá muito mais acessível, a poesia falada é muito mais acessível. Então, pra mim, me deu uma segurança maior como poeta mesmo, experimentar o ritmo, a palavra, a performance, como mastigar a palavra.”

E, por mais que faltem lugares para sua expressão, Baffô continua pelas ruas, vivendo a poesia da cidade. “A rua é sempre muito generosa comigo. Eu sempre acho dinheiro na rua, tô moscando eu acho 100 conto, acho 200 conto, acho 50 assim – depois o pix me fudeu. Mas a rua sempre me acolheu, sabe qual é? Tipo assim: conheci uma galera legal que me levou pra outro lugar, ‘pô, Giovani! te dou 200 conto pra ir falar uns poema lá, bora lá? Tô procurando um poeta mesmo, quer falar uns poemas? Te dou 300 reais’ sempre tem alguma coisinha. As melhores coisas que eu fiz, foi na rua.”

Então ele aproveita para falar de outro projeto que ainda não havia mencionado – e que só poderia ter acontecido na rua. “Eu fiz um curta-metragem, né? Fiz o argumento e entrevistei a galera, ele chama Açalto, com Ç. Porque nós entrevistamos três assaltantes, e o mote é que eles têm muita baixa escolaridade, né? Dos três, dois não sabem ler, e um sabe, mas não muito bem, nenhum terminou a escola. E eles assaltavam residências, lá em São Paulo, na favela que eu nasci lá. Acho que é de 2015, tá no YouTube. É bem legal, eu fiz perguntas sobre quem ensinou a ler, quem foi seu pai, quem foi sua mãe, como é que você vê a escola, como é que você vê o Governo, tipo assim: perguntar pra um marginal coisas que um cidadão costuma responder. Aí deu muito boa as respostas dos moleques, muito boas respostas, as imagens, a fotografia ficou muito legal – só a sombra do cara, a fumaça do cigarro, metade do chapéu, sacô? Pra não identificar a figura. Fiz esse filme que foi bem legal na época, a gente lançou ele em vários lugares, em mostra de cinema em Parati, nos saraus, em bares lá, festival lá em São Paulo.”

Depois de Voo Absoluto, Giovani não lançou outros livros, mas planeja um – o seu primeiro de crônicas – pra esse ano: Uma tubaína e 12 copos. “A ideia surgiu porque a gente tava na favela, fazendo a Vielada Cultural e tinha um monte de grafiteiro e juntou um monte de moleque, aí resolvemos comprar um refrigerante pra esses moleques. Só que nós tava também meio sem dinheiro, então compramos dois litros de refrigerante, aí mandamos o moleque ir buscar lá, aí quando ele voltou, voltou com mais moleque ainda. Aí ele mesmo falou, o moleque – que hoje ele grande, tá até preso, é um puta assaltante, mas o moleque tinha futuro, era muito bom piadista – aí ele falou ‘pô, maluco! Um refrigerante e 30 copo, carai? Como é que vai dá?’ O molequinho, pequeno, fez a maior piada da nossa desgraça, da nossa pobreza, né? E é aí que eu entro no meu livro, é assim: acontece muita desgraça, só que é aquela desgraça brasileira, sabe qual é? Dá pra você dar uma risada no final, dá pra extrair alguma coisa, dá pra rir ainda. Sabe? o brasileiro consegue, mesmo que o cara tomou 28 facadas, dá pra sobrar alguma piadinha ali ainda, alguma coisa que tu vai soltar aquele sorrisinho, tu vai rir.”

Numa situação bem menos trágica, nossa entrevistou se encerrou e, em uma Heineken e três copos, continuamos conversando com o gravador desligado.

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