Com olhar atento para a história e a arquitetura de Florianópolis, Ricardo anda por aí fazendo registros e publicando informações coletadas do cotidiano.
Por Renan Bernardi
Atualizado pela última vez: 27/02/2024, às 14h13.
Em março de 2024, a capital de Santa Catarina comemora 351 anos de sua colonização. Um município que passa por tantos períodos históricos, acaba reunindo em suas ruas um amontoado de signos de diferentes épocas que, contrastando-se uns com os outros, nos ajudam a entender como essa cidade chegou até aqui. Como era e como é.
Quem anda pelo Centro, principalmente nas ruas próximas ao Mercado Público (Felipe Schmidt e Conselheiro Mafra), ou mesmo em algumas regiões de bairros como Santo Antônio de Lisboa e Ribeirão da Ilha, pode ver prédios construídos entre os séculos 17 e 19 ainda em pé, ao lado de outros que se ergueram há bem menos de 100 anos. Mas isso é muito mais exceção do que regra.
Acompanhando mais atentamente a movimentação da especulação imobiliária em Florianópolis, fica claro que construtoras, imobiliárias e órgãos do poder público não têm a preservação arquitetônica como prioridade em suas ações – muito pelo contrário.
E se o tombamento, recuperação e preservação de antigos imóveis não são realizados, para que as histórias que os prédios contam continuem sendo contadas, resta o registro. E é exatamente isso que faz o personagem principal dessa matéria.
Ricardo M. (que prefere não se identificar além disso) criou o perfil @arqdesterro no Instagram em 2021. “Faz uns três anos eu resolvi fazer um perfil aberto no Instagram fotografando coisas aleatórias da rua. E, também nessa época, eu tava lendo um livro chamado “Florianópolis – Memória Urbana”, da Eliane Veras da Veiga, que é uma professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), onde ela conta sobre a evolução da cidade do ponto de vista da arquitetura, do desenvolvimento. E daí eu li esse livro e comecei a andar pelo Centro contemplando esses lugares que ela menciona, comecei a fotografar esses lugares e ver que muita coisa ou já tinha sido demolida ou tava prestes a demolir. Daí que esse perfil acabou tomando mais esse enfoque de registrar as casas”.

“No começo era totalmente livre, bem aleatório, só uma contemplação de coisas, mais como eu ainda faço nos stories, mostrando as coisas que a gente encontra pela rua. Mas aí agora acabei deixando um pouco mais, no feed pelo menos, um negócio mais de história, de registro”.
Ricardo me conta que a inspiração para o @arqdesterro foi o perfil de André Gomes, um arquiteto e fotógrafo que registra “casinhas de vó” pelas ruas de São Paulo. A partir dessa referência – e das leituras sobre a história urbana de Florianópolis – ele aproveitou a dinâmica de seu trabalho, que o faz caminhar pelo Centro da cidade, para ir registrando lugares e coisas que ele achava interessante. “Eu sou funcionário público e trabalho no fórum entregando uma documentação. Então faz parte do meu trabalho ficar andando pelo Centro de Florianópolis o dia inteiro, daí, como eu tenho a fotografia como hobbie, eventualmente comecei a fotografar e acabou evoluindo pra uma coisa sobre a arquitetura da cidade”.
Mas, diferente de André (e também do que pensa muita gente que segue o @arqdesterro), Ricardo não é arquiteto. “Sou formado em Direito. Gosto de ler e estudar, mas não tenho um conhecimento formal sobre arquitetura, só um interesse mesmo”. Também diferente da referência paulista, Ricardo prefere não se apresentar pessoalmente. Pergunto se isso se deve a algum receio, mas ele me dá uma explicação bem mais elegante. “Não tem um motivo por eu ter me ocultado, só achei que seria mais legal. Esse negócio de influencer é um pessoal que quer muito se promover, e isso não é minha vibe. E acho que acaba gerando um mistério e isso gera interesse nas pessoas também”.
Colaborando com esse mistério, Ricardo usa como foto de perfil uma obra de arte do artista visual florianopolitano Victor Meirelles. “No início da página, eu trabalhava mais no centrão, agora eu trabalho mais na Avenida Mauro Ramos. Mas, nesse começo, eu ia bastante nos museus e postava bastante coisa. E uma vez eu fui no Museu Victor Meirelles e tinha essa pintura dele, acho que o nome é ‘Cabeça de Velho’, um estudo que ele fez. Aí acabei botando a foto de perfil e nunca mais tirei, mas não tem nenhum significado. Eu acho que cheguei a ter uma foto minha no perfil no começo, mas depois optei por ficar mais incógnito”.

Já o “desterro”, usado no nome do perfil, também afirma a referência histórica que Ricardo busca trazer para suas publicações. Quando fundado, o povoado que veio a ser hoje a capital catarinense foi chamado por Francisco Dias Velho de Ilha de Santa Catarina. Depois, a vila passou a ser chamada de Nossa Senhora do Desterro e, por um breve período após a Independência do Brasil, teve também o nome simplificado apenas para Desterro. Já na virada do século XIX para o XX, depois de uma treta gigantesca, o governador Hercílio Luz resolveu nomear a capital do Estado para Florianópolis, em homenagem à Floriano Peixoto, então presidente da República. “Eu achei que seria legal fazer um negócio que remeteria à memória, a história, ao período pretérito”, conta Ricardo.
Mesmo não sendo arquiteto, o perfil de Ricardo vem tendo certo respaldo de pessoas do meio. Ele me conta que, além de profissionais do ramo, também alunos e professores de arquitetura em universidades seguem e acompanham suas postagens. “Na época que eu comecei a estudar um pouco mais, com base no livro da Eliane, eu percebi que é difícil tu achar alguma coisa de registro de arquitetura por aqui. E acho que o perfil acabou achando um nicho e, por um acaso ou sorte, muita gente da arquitetura da UFSC segue desde o começo, da UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina) também. É um pessoal que começou a se interessar e começou a disseminar nesse meio. Tanto que todo mundo acha que eu sou arquiteto, que eu estudei na UFSC – e não, né? Foi um negócio que começou espontaneamente”. Inclusive, recentemente uma foto de Ricardo foi parar até em uma dissertação de mestrado da UFSC para em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
“Eu acho que o pessoal gostou da ideia. Claro, imagino que esse meio acadêmico é um negócio super fechado, mas acho que a galera gostou da página. Tanto é que, as pautas que eu posto, até um post que eu fiz essa semana ali no bairro Coqueiros, é tudo coisa que a galera manda e eu vou atrás pra tirar foto. Ou alguém manda uma foto antiga, ou manda informações, sempre tô recebendo muita coisa. Tem até um menino, que é o Leonardo, que é da arquitetura da UFSC, que vive me mandando foto, informação, apesar de eu nem conhecer essas pessoas pessoalmente”.

Essa postagem do bairro Coqueiros mencionada por Ricardo é sobre o edifício Normandie, que havia sido construído para abrigar o Coqueiros Cassino Hotel nos anos 1960. Ela é um bom exemplo de como é o conteúdo produzido por Ricardo que, além de contar com a colaboração dos seguidores, também se dedica a pesquisar e trazer informações sobre a situação dos prédios que ele fotografa e publica. “Como eu trabalho no fórum, tenho acesso aos processos ali. Então, eventualmente, alguma coisa que eu vejo e acho interessante, eu procuro. Alguns processos tem segredo de justiça e não dá pra acessar, mas, via de regra, eles são públicos. Então, por exemplo, esse do cassino em Coqueiros, é um imóvel que tem uma ação civil pública, porque os donos querem demolir, mas o Ministério Público entrou contra. Aí eu dou uma olhada, me aprofundo um pouco no assunto e tento dar uma informação mais concreta sobre as coisas. As pessoas gostam”.
No momento em que escrevo essa matéria, o perfil do @arqdesterro no Instagram tem cerca de seis mil seguidores. Ricardo me conta que esse número aumentou muito nos últimos meses, depois de uma publicação sobre um casarão demolido em uma importante rua de Florianópolis. “Teve um evento que realmente gerou um número grande de seguidores, que foi o caso da casa na Avenida Trompovisky, um casarão do Centro que foi demolida uns meses atrás. Esse foi um vídeo que deu muito engajamento, veio um fluxo de muita gente nova, muita gente começou a repostar. Era um casarão histórico, de uma família bem tradicional, uma oligarquia local. E daí tinha a tiazinha que era a herdeira ali e ela tentou tombar em vida a casa umas duas vezes, mas foi indeferido pelo município. Acho que faz uns dois anos que ela faleceu. Mas era uma casa linda, numa rua super valorizada, super bacana. Acho que era uma das últimas casas da rua e ela foi demolida e, por coincidência, eu consegui fazer um vídeo”.
Seis mil seguidores pode até não ser um número muito grande, mas as pessoas que acompanham o @arqdesterro são muito participativas na página, sendo elas parte fundamental do acervo de informações, fotos e conteúdos publicados. “Acaba rolando umas histórias legais, sim. De eu postar a foto da casa e aparecer o dono, daí conta um pouco da história e eu acabo compartilhando também. Aparece bastante coisa legal nesse sentido”.
Outro exemplo bacana aconteceu recentemente, quando uma casa que Ricardo havia fotografado e publicado em 2022 foi demolida e um seguidor veio avisá-lo. “Essa foi demolida no Saco dos Limões essa semana. Em 2022 eu tirei a foto e deixei lá na página, aí alguém essa semana me mandou que a casa foi demolida. Aí pelo menos fica o meu registro”.


Para esses seguidores ilustres, Ricardo costuma dar apelidos cômicos como “uma pessoa muito próxima dos Koerich” ou “uma pessoa muito próxima do prefeito Topázio”. Ele explica: “Isso faz parte também da narrativa. Koerich é a aristocracia-mor de Florianópolis, daí acaba sendo uma piada meio recorrente, pra dar um certo humor pras postagens. Eu sempre achei engraçado o prestígio deles aqui, de forma que parece que ser meramente amigo, ou próximo deles, seria um símbolo de status. Daí, normalmente quando alguém me manda alguma info ou foto, eu boto que a pessoa é ‘muito próxima dos Koerich’. E, partindo disso, às vezes adapto conforme o que sei sobre a pessoa. Uma vez, uma menina, que é arquiteta na prefeitura, me deu um livro sobre artes públicas em Florianópolis, daí postei sobre e disse que ela era ‘muito próxima do prefeito’. Por exemplo, no teu caso, diria que você é muito próximo dos Sirotskys”. Sobrou até pra mim!
Essa mistura de interação direta do público com informações trazidas de pesquisas aprofundadas, me faz entender o @arqdesterro como uma espécie de mídia alternativa. Perguntei pro Ricardo se ele concorda com isso: “Acho que tem um pouco disso, sim. Geralmente a mídia tradicional é mais enviesada, e eu tento dar um negócio com mais liberdade. Ultimamente eu tenho até evitado dar tanta opinião, porque tava começando a ver as pessoas se digladiando nos comentários, então eu prefiro ser mais objetivo, posto só a foto da casa. Antigamente, eu costumava tecer algum comentário mais combativo, falando sobre a destruição e tal, agora foco mais no registro mesmo”.
“O pessoal que é mais rotineiro da página geralmente endossa essas minhas opiniões, mas começou a surgir umas pessoas mais aleatórias, fazendo uns comentários tipo ‘ah, a casa é do cara, ele demole se ele quiser! quem é você pra tá criticando?!’ aí vem outro e fala ‘ah, vai tomar no cu! tem que preservar’ tipo assim. Aí eu prefiro ser mais objetivo nessas situações, porque as pessoas acabando levando prum lado meio pessoal e que não é o objetivo da página. E parece que, por questão de engajamento, o algoritmo gosta de conflito, treta, e esse não é o meu perfil”.
Aproveitei esse comentário para dizer pra ele que, mesmo evitando dar suas opiniões, eu entendia a página como uma denúncia dos exageros da especulação imobiliária e da falta de cuidados com a memória na cidade. Ele então me diz que “a destruição, com o progresso, é inevitável, é conforme a cidade cresce. Mas, poderia se preservar um pouco da história. Tu precisa de prédio, mas também precisa de escola, outras coisas que, não vai ser por causa de uma casa – como aquela da Trompovisky que eu falei – não vai ser por causa disso que o progresso vai parar. E, nesse caso, o que eu acho pior é que era uma família que tinha dinheiro, que poderiam preservar a memória do patriarca ali, enfim, mas não se importam com isso, destroem tudo sem qualquer cuidado. E o poder público também não tem interesse, acaba também sendo conivente com uma destruição desmedida, não precisava ser assim”.
“Eu vejo assim: como a página tem três anos, percebo que a destruição das casas vem meio que em ondas. Quando eu comecei a registrar, em 2021, teve uma onda de destruição muito grande, aí acho que deu uma apaziguada e, agora, do final do ano pra cá, parece que começa de novo. Toda semana o pessoal me fala que tão derrubando tal casa, ou eu passo na frente e vejo que tá acontecendo. Então, eu acho que isso tem se acelerado sim, por conta da especulação, os imóveis tão valendo muito, certamente deve ter uma demanda grande por moradia no Centro”.
Mas nem tudo são ruínas e prédios espelhados. Cometei com Ricardo sobre a revitalização da casa onde morava o governador Hercílio Luz, feita pela construtora Milano, que eu sabia que ele já havia visitado e registrado. “Ficou abandonado muito tempo, né? Eu acho que, quando eles compraram, o objetivo era até demolir mesmo, porque tava imprestável, aí teve alguma treta ali, porque ele era tombado e tal. Mas ali foi legal, os caras revitalizaram. E é bem massa, bem bonito por dentro, os pisos, tudo. Mas, como é um negócio de eventos fechados, é difícil de ir. Às vezes rola uns eventos abertos, mas é mais coisa privada e acho que, fora isso, você nem consegue ir. E a casa fica meio escondida de quem vê da Mauro Ramos, mas é bem grande atrás. E ali era a casa do cara, tanto é que o Banco Redondo, na avenida, tem o nome da mulher dele, que supostamente ela ficava ali, de boa”.


Apesar de certa popularidade, Ricardo não tem grandes pretensões com o @arqdesterro. Seu ideal é mesmo o registro e o arquivamento das imagens de prédios que, como estamos vendo, estão quase sempre em constante risco de não mais existirem. “Durante muito tempo eu postava no Instagram e apagava do celular. Faz um ano agora que eu posto e salvo no meu computador. Porque o Instagram é um negócio meio fugaz, daqui a pouco eu posso ser banido e daí vou perder todo o arquivo. Agora eu tô tendo que melhorar o meu backup, comprar um HD externo. Claro que o computador – e o HD também – podem dar problema, mas tenho pelo menos procurado salvar. E tenho postado no Twitter também, porque o Instagram não aparece em busca do Google, né? E no Twitter, se alguém procura, sei lá, ‘Avenida’, ‘Arquitetura’, ‘Saco dos Limões’, aparece alguma coisa minha ali na pesquisa e, no Instagram me parece que não, a impressão que eu tenho é que ele não é indexado pelo Google, e o Twitter eu acho que sim. E, no Twitter, as fotos ficam com a resolução melhor também”.
Pode até parecer um pouco ingênuo, mas vendo com carinho, é fácil perceber a importância do trabalho de Ricardo com o @arqdesterro. Ali, no Instagram e no Twitter, de forma despretensiosa, interativa e divertida, ele está ajudando a contar a história (ou, pelo menos, algumas boas histórias) dessa cidade. “Eu falo por mim, por muito tempo eu andei no Centro e nunca dei bola pra a arquitetura. Tive que ler um livro, começar a estudar um pouco pra parar e contemplar, ver como ainda tem casarões bonitos na cidade e, com as postagens, muita gente fala que nunca tinha reparado nesse aspecto, no Banco Redondo ali da Avenida Mauro Ramos, vários imóveis escondidos, e até a história de alguns lugares. E eu acho que isso é mesmo o principal objetivo: estar de alguma forma ajudando a contar a história. Porque eu acho que, se as pessoas tem mais conhecimento, talvez tenham mais interesse em ajudar a preservar”.




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