Foto: Andressa Colbalchini
Uma roda de samba, criada por um grupo de jovens no centro da cidade, vem chamando atenção em Florianópolis.
Por Renan Bernardi
Atualizado pela última vez: 31/01/2024, às 09h47.
Em 1887, a capital do Estado de Santa Catarina ainda era chamada de Nossa Senhora do Desterro. Foi nesse ano que se iniciaram as obras de saneamento que canalizaram os córregos Fagundes e Trajano na região do Mercado Público, no Centro do município.
Algumas décadas depois, já a capital possuindo o nome de Florianópolis, o Rio da Bulha, também no Centro, é que começa a ser canalizado. Naquela região, ao leste dos principais prédios e espaços de convivência da burguesia local, viviam lavadeiras, marinheiros e pescadores em casas humildes à margem do rio.
É contraditório notar que, a mesma burguesia que denominava parte do rio como “beco sujo” e justificava a sua canalização com base num projeto de modernização e higienização para a cidade, também mandava para lá as suas roupas para serem limpas pelas lavadeiras, que eram, em maioria, mulheres negras ex-escravizadas ou filhas de escravizados. Na beira desse rio, essas mulheres lavavam e entoavam seus cantos, marcando o ritmo da lavação e verbalizando suas dores em versos.

A Avenida do Saneamento, como foi primeiramente reconhecida, teve seu traçado delimitado através do curso do rio, iniciando na Rua José Veiga (atual Avenida Mauro Ramos), passando pelo aterro da Baía Sul e indo até o mar.
Hercílio Luz, que foi o governador responsável por mudar o nome da capital em uma homenagem à Floriano Peixoto, também foi homenageado por intensificar esse projeto de urbanização da cidade e, anos depois, a Avenida passa a ter seu nome.
Hoje em dia, após o aterramento ocorrido na região central da cidade nos anos 1970, a Avenida Hercílio Luz não vai mais até o mar, terminando seu trajeto (que ainda segue o traçado do rio canalizado) na Avenida Governador Gustavo Richard.

Até 2005, o canal do Rio da Bulha ainda estava aberto no centro da Avenida. Após o seu fechamento, em cima do rio foi construída uma alameda arborizada, que hoje se tornou um dos pontos de encontro mais agitados da vida noturna de Florianópolis.

“Eu tava conversando com um padrinho do meu filho e começamos a falar sobre a história da gente estar, ali na Hercílio, em cima de um rio sepultado, e que as lavadeiras iam ali pra entoar cantos, lavar, trabalhar e compartilhar histórias. Então a gente ficou tanto com isso na cabeça que, na zoeira ali, alguém falou ‘ah, é o Samba do Rio da Búia’ e foi chegando até se tornar o Samba da Búia, que é essa história por detrás do nome. É engraçado que ali, o nome do rio é ‘Bulha’, mas o manezinho fala ‘búia’, então a gente adotou esse modo pro nome do grupo”, é o que me conta Gabriel Rosa, cantor, compositor e percussionista desse projeto musical, que se deu no encontro de amigos na boêmia da Avenida Hercílio Luz.
Gabriel se apaixonou pela música dentro de casa. Sua avó, que teve 11 filhos, promovia grandes reuniões de família com rodas de samba, onde o menino aprendeu a tocar pandeiro para entrar na festa. Mais velho, ele passou pelo grupo de samba-rock Rolê do Zica e também possui, até hoje, um projeto solo chamado Força Ancestral.
Já em 2023, Gabriel foi um dos organizadores desse movimento que foi desaguar no Samba da Búia através de um fluxo natural de reunião, conversa, samba e cerveja com os amigos. “Na verdade, a gente se reunia em tudo que era lugar fazendo samba, conversando sobre samba, e é um monte de gente apaixonada por samba, né? Ali dentro do grupo, cada pessoa traz a sua característica que fortalece o movimento.”

Conversei com Gabriel e os outros membros do Samba da Búia no dia 27 de janeiro de 2024, em mais uma apresentação do grupo na Casa Odara, que fica também ali no Centro, pertinho da Hercílio. Lucas Inácio, percussionista da roda, é quem me conta como tudo começou: “Foi um negócio meio meteórico, a gente sempre tava tentando se reunir, tinha um grupo que a gente tocava uma vez a cada duas semanas na rua, ali na Hercílio mesmo, conciliando com trabalhos e tal. Mas aí chegou um momento, ali mais pra reta final de novembro [de 2023], que tava todo mundo com disponibilidade e com vontade de tocar. Aí a gente começou a organizar: ‘vamo hoje?’ Aí três ou quatro pessoas topavam e a gente ia pra rua. Então foi de uma vez a cada duas semanas, pra três vezes por semana.”
Lucas, assim como Gabriel, conheceu o samba com a própria família. Seus tios, pagodeiros, tinham o Grupo Amizade, criado no bairro do Campeche, no Sul da Ilha de Santa Catarina. Após passar por essa formação em rodas de samba, Lucas também cria seus primeiros grupos de pagode na adolescência, mas, com a chegada da vida adulta, decide deixá-los de lado para focar na sua carreira de jornalista. Mas a música não parou em sua vida: ainda como jornalista, criou projetos de comunicação voltados para o rap, com análises musicais que aproveitavam tanto as suas experiências em passar as informações, quanto a sua noção de ritmos advinda do samba.
Após a pandemia, sua vontade de estar mais próximo da música aumentou muito. Morando no Centro pós-pandêmico de Florianópolis, com a fervilhação que até hoje não se acalmou por completo, Lucas passou a se enturmar com uma galera da música, conheceu o Gabriel Rosa e, a partir desse contato, começou a se apresentar com ele em 2022. “Lembro até que no dia do Brasil e Croácia, na eliminação do Brasil, a gente tocou junto com a Júlia Maria lá no Araçá [bar do bairro Lagoa da Conceição], e foi o samba que deu uma animada na galera, porque o Brasil tinha sido eliminado logo antes.”
“Com o tempo, começaram a pintar algumas coisas mais recorrentes, tocando com o Gabriel quando ele fazia o samba dele, e de uns meses pra cá a gente veio fazendo mais recorrentemente o Samba da Búia, com esse grupo. Antes disso, uma pessoa muito importante pra gente foi a Gugie Cavalcanti, que promovia sambas lá no Ateliê dela [no bairro Rio Vermelho] uma vez a cada mês ou dois meses, e esse era o momento da gente tocar mais profissionalmente. Mas era muito esporádico, a gente ficava só nisso e não se juntava mais pra tocar. E, quando começou a ficar recorrente com esse grupo, teve o último samba do Ateliê da Gugie [no dia 16 de dezembro de 2023], aí a gente quis montar uma galera fera, uma equipe massa e, como já tava acontecendo esses sambas na rua, a gente resolveu usar isso pra ensaiar pra esse evento.”
“Teve um dia que combinamos um samba ali na Hercílio, mas tava com possibilidade de chuva. Aí o Gabriel tinha o contato do Camilo [proprietário da Casa Odara] e ele perguntou se a gente podia ensaiar aqui. O Camilo topou e, quando ele viu que tinha um potencial, chegou e fez o convite pra gente tocar aqui. Aí como a gente já ia tocar na Gugie no sábado, dia 16 de dezembro, tocamos aqui na Casa dia 14. A primeira impressão aqui, só de sistematizar o que a gente já vinha fazendo na rua, já foi uma porrada, aí na Gugie foi outra porrada, aí na semana seguinte já teve a festa da Eli do Acarajé, que também foi aqui na Odara e chamaram a gente pra tocar de novo. Aí repetimos aqui de novo na outra semana também, começou uma bola de neve.”

Era precisamente 23h18 no meu celular quando Anis de Flor começou a puxar as palmas e a cantar “Lata D’água”, composição dos portelenses Luís Antônio e Jota Júnior. Ainda apenas nas palmas, toda a roda começou a acompanhar Anis. Logo, toda a Casa Odara marcava esse mesmo pulso com as mãos.
Quem vê essa intimidade de Anis com a roda, talvez nem imagine que sua relação com o samba seja tão recente. A cantora e compositora que, em 2022, lançou seu álbum solo FÉRTIL e, em 2021, participou do álbum do Grupo IMANI, tem uma trajetória bem diferente dos demais membros do grupo. “Eu acabei caindo dentro do samba, porque nunca foi um espaço de estudo pra mim. Eu sempre gostei muito, sempre ouvi, mas nunca me propus a cantar samba e, a partir da amizade com todo mundo aqui, da gente tá sempre junto no rolê da música e acabar se encontrando e começar a fazer o samba na rua, eles foram me incentivando a cantar e eu fui me jogando cada vez mais, fui gostando. Tá sendo um projeto muito novo pra mim, tô me descobrindo cada vez mais e tá sendo um espaço de explorar muita coisa dentro da própria música, porque o samba tem uma linguagem muito dele, muito específica e é muito diferente da que eu sou acostumada. Eu cresci como cantora e compositora dentro do jazz, do pop, R&B, do reggae, então é um outro lugar, um lugar de música preta sempre, mas o samba, que é a nossa afrobrasilidade fortíssima, eu nunca tinha explorado como intérprete.”
“Então isso, pra mim, tem sido muito incrível, tem feito esse efeito um pouco reverso, de eu chegar no samba trazendo toda uma bagagem que eu tenho de outros gêneros musicais, das experiências que eu tenho em outros espaços. Quando eu vou cantar um samba, ele não sai de uma maneira tradicional, ele sai de outro jeito. E aí, eu acho que isso, de maneiras que eu ainda não enxergue ou reconheça, com certeza influencia também no meu trabalho autoral, mas o que eu mais vejo é esse lugar de eu conseguir trazer uma linguagem pro samba, sabe?”
Além desse aprimoramento em uma nova linguagem, Anis reconhece no Samba da Búia também uma nova perspectiva para sua arte e existência em Florianópolis. “Eu acho que o Samba da Búia tem uma coisa muito diferenciada, e que foi até natural, mas que agora a gente reconhece como uma característica muito importante da roda, que a gente quer se manter muito firme nisso, que é o fato de ser uma roda preta, majoritariamente preta, né? E tem várias outras rodas de samba aqui em Floripa que são maravilhosas, incríveis e tão aí há muito tempo. Só que a gente tem essa consciência de que é um resgate de uma cultura que é nossa raiz e, dentro de Florianópolis, que é uma cidade super branca, super elitista, super burguesa, a gente tá nesse movimento de se aquilombar, e acho que isso tem um axé muito diferente e a galera sente.”

Já Guilherme Goes, violonista do grupo, foi outro que teve seu envolvimento com o samba através de sua família. Desde os cinco anos de idade ele saía no carnaval com seu avô no bloco Batuqueiro do Limão, do bairro Saco dos Limões. Foi também seu avô quem lhe ensinou os primeiros acordes de violão, coisa que ele leva na memória até hoje quando faz as baixarias do Samba da Búia.
Seu envolvimento com o grupo veio também da interação com a cena musical do Centro da cidade. “Sempre admirei pra caralho o trabalho do Gabriel, da Anis, já toquei com eles algumas vezes, em coisas assim da espontaneidade da música mesmo. E, desde que a gente começou um compromisso com um nome, endereço e situação, a gente não parou mais de fazer a parada. E é uma honra a gente ter a oportunidade de tocar numa cidade tão musical, tão receptiva, tão massa, com gente massa, tocando pra caralho. A gente é mais uma das vozes de pessoas fortes, com uma musicalidade surreal e, pra mim, é uma honra.”

Além da família também ser o berço de seu amor pelo samba, para Mirella Calixto, percussionista do grupo, essa relação ainda se dá pelo contato direto com as escolas de samba de Florianópolis. “Minha mãe era da Protegidos da Princesa desde criança, minha avó antes, depois minha mãe. Então eu vivo na escola de samba desde a barriga da minha mãe. Aí, minha família criou uma escola em 2004, que é a Dascuia, então a gente fala que é Protegidos de sangue, porque vem dessa herança, mas é Dascuia de coração.”
Mirella aprendeu a tocar percussão aos oito anos de idade, aos nove já participou da ala das crianças da escola e, aos 10 anos, já era da bateria oficial. “Tive alguns breves intervalos mas, desde então, eu sempre saio com a escola de samba.”
Sua profissionalização como percussionista vem do tempo em que foi da banda residente da Casa do Sambaqui, que era de um amigo seu. “O Samba da Búia veio como um resgate disso tudo, porque eu já tava meio desanimada com o samba. A pandemia aposentou todo mundo, a Casa do Sambaqui definhou, e aí começaram a me chamar pra tocar só de vez em quando. Aí o Gabriel [Rosa] me trouxe pra fazer parte de um clipe pro Arvo Festival, depois a gente também fez um after aqui no Centro e, nesse dia, a gente já começou a compor umas 10 músicas brincando, acho que devo ter relato de uma ou duas só. Mas, daí pra frente, eu vi que essa galera fazia meu olho brilhar pro samba, e tamo aí até hoje.”

Além de Mirella, o Samba da Búia tem ainda outro membro envolvido no universo de uma escola de samba. Natan Severino é natural do bairro da Coloninha, na região continental da capital catarinense, e, sendo de lá, tem a família toda envolvida com a Unidos da Coloninha. Cavaquinista, cantor e compositor do grupo, foi através da família, da comunidade e da escola que ele iniciou o seu entendimento do que é música. “Mas eu não me entendia como músico ainda. Fui viver a dança, que sempre foi algo presente na minha vida. Em 2009, comecei a fazer dança de salão e eu danço até hoje, né? Mas eu comecei a dar aula de dança em 2013 e só agora em 2023, em julho, eu parei.”
Licenciado em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), foi no Centro de Artes (Ceart) da universidade que Natan começou a se entender dentro do universo musical. “Tinha um moleque fazendo som, tocando um samba na cantina e eu colei nele. Eu já cantava, mas desenvolvi muito meu canto depois disso, muito por causa desse encontro com ele, que é o Rafael Vieira, grande amigo. Na pandemia, foi ele que me ensinou a tocar o cavaco.”
O envolvimento de Natan com a música é recente, mas não menos relevante: começa a cantar profissionalmente em 2019 e, logo no ano seguinte, foi um dos cantores do desfile da escola de samba Acadêmicos do Sul da Ilha no carnaval.
“E o Samba da Búia vem concretizando isso, porque a gente já tinha tocado muitas vezes por conta da Gugie e do Ateliê dela. Eu vinha tocando com eles lá já faz um ano e, agora em 2023, o primeiro ensaio que eu fui fazer com esse pessoal ali na Búia acho que foi em agosto. E rolou mesmo como um encontro, pra gente se encontrar e se conhecer, fazer música, brincar e rir, contar dos causos da vida, chorar no ombro do amigo. E a Hercílio começou a ser um lugar que firmou esse encontro e, só depois, a gente se percebe nesse lugar: em cima de um rio! Eu cheguei mais no final desse momento, acho que tava se amarrando já, porque eu já tinha me encontrado com eles outras vezes, muitas vezes, mas eu cheguei quando o negócio já tava mais estruturado.”

“A Búia é uma grande convergência, na verdade. Eu acho que essa imagem do rio também é muito legal, porque a gente vai desaguar nesse encontro, né? nessa roda”, é o que diz Quincas Avelino, banjoísta do Samba da Búia e o único membro do grupo que não é nativo de Florianópolis. Nascido no Rio de Janeiro e criado em Atibaia, no interior de São Paulo, ele foi conhecendo o samba a partir dos discos de sua família, que ouvia muito samba enredo, Dona Ivone Lara , Moacyr Luz e tantos outros.
“E minha história com Florianópolis é muito interessante, porque envolve o samba – o Samba da Antonieta. Eu morei quatro anos em Criciúma, aguentando frio, aturando as pessoas frias, me dando conta também do racismo e da segregação que acontece no Estado de Santa Catarina. Eu tava em Criciúma e vim pra cá porque um amigo meu falou ‘cara, tem um samba aqui que eu acho que você vai gostar’ e, enfim, ele já me conhecia, sabia que eu gostava muito de samba antigo, samba da década de 30, 40, gosto muito do velho Estácio de Sá. Aí eu vim no Samba da Antonieta e fiquei ‘caralho! era isso que eu tava precisando’, aí comecei a vim todo final de semana.”
Depois de três meses vindo toda sexta-feira para Florianópolis e voltando todo domingo à noite pra Criciúma, Quincas pediu demissão e se mudou para a capital. “Muito também por conta das pessoas que encontrei, conheci o Rosa na rua, depois fui conhecendo a galera ali na Antonieta. E aí minha vinda pra Floripa é muito por conta do samba, o samba foi também um atrativo, uma potência.”

Além dos sete membros mais fixos, as rodas do Samba da Búia sempre contam com outros convidados que contribuem tocando percussão, violão, cavaquinho e até trombone, dependendo da ocasião. Esse formato maleável acaba trazendo o calor da rua mesmo nas rodas que acontecem em lugares fechados e, como consequência disso, o grupo vem tendo uma identificação muito grande com a população da cidade. Lucas me disse que “a gente traz muito a coisa da característica do local e do nome. Começamos fazendo na rua e isso ganhou uma cara da cidade, né? As pessoas se juntavam, começavam a tocar e, do nada, o instrumento já tava na mão de outra pessoa totalmente diferente. Então a gente tem essa conexão de fazer o samba na rua, trazendo da rua pra rua, né? Então tem essa retroalimentação e, sendo nas ruas de Florianópolis, não tem como desassociar as duas coisas. O nome veio disso, veio da rua onde a gente tava fazendo, veio dessa coisa da ancestralidade. Então a gente tem, como projeto, não só trabalhar a música, mas também a história por trás dos sambas que tão rolando aqui.”
Com poucos meses de atividade oficial, essa roda de samba, feita por jovens, vêm lotando espaços em Florianópolis e recebendo o apadrinhamento de bambas do samba local. “Uma das coisas que precisa ser falada também é que a gente tem muito respeito das pessoas do samba que vieram antes: galera do Samba de Terreiro – Jandira, Júlia Maria, o Raulino, Fabrício, Raphael Galcer – também o Marcelo Sete Cordas, que tem toda uma trajetória. E a gente também tem todo esse respeito pelas pessoas que abriram essas alas pra que a gente pudesse tá aqui e pra que esse público, que eles também formaram, esteja aqui”, é o que me conta o Quincas que, ainda sobre a receptividade do público, conclui que “não esperava que isso aconteceria, ao passo que, nosso desejo e nossa necessidade de encontro era tão grande, que isso é natural da convergência dos nossos desejos.”
Esse carinho do público é notado por todos os membros do grupo. Mirella disse que “pelo relato que recebo das pessoas, acho que Floripa tava precisando muito desse ar de gente nova. Mais de 10 pessoas já chegaram e me falaram que precisavam desse ar novo, desse projeto novo, diferente, que não tinha aqui. Então eu acho que a gente chega realmente com esse novo olhar.”
Já Natan diz que “acho que esse momento, de se encontrar e fechar o negócio, parece que ele já tava traçado de certa maneira, sabe? E todas as pessoas que vem aqui viver a roda com a gente, parece que eles também estão junto com a gente, parece que estavam direcionados a estarem aqui, eles colam e jogam a energia pra cima e o nosso samba vai ganhando.”

Essa mística envolvendo a roda, visivelmente compartilhada por todos na hora que o Samba da Búia começa a tocar, também foi um assunto que eu trouxe para a conversa com os membros do grupo. O próprio Natan me disse que quase teve a roda de samba como tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) pela Udesc, mas acabou não rolando. “Mas a roda é minha vida, eu quero escrever um projeto pra ir pro mestrado e estudar a força que a roda tem, porque eu sei que a roda tem uma força perante meu corpo. A partir do momento que eu escuto uma batucada, um canto afrodiaspórico, ou vejo uma dança, o meu corpo fica comprometido com aquela roda, mesmo se eu estou passando na rua, tenho que dar uma espiada, parar uns cinco minutos e me relacionar, mesmo que nessa transição pela roda.”
Já Gabriel me disse que “a roda de samba é a principal fonte de conexão, cara. Porque, quando tem uma roda de samba, e ela consegue realmente se conectar, não tem quem não se emocione. Ainda mais com samba, porque o samba trata a dor com amor, né? Então é isso que a gente acaba trazendo e tentando levar pra frente. Não somente a roda de samba, mas o próprio samba de roda, de capoeira, todas essas rodas são força ancestral, né? É uma força que ultrapassa várias coisas. Então, sempre que uma roda se forma, é porque é muito mais além.”

Para além desse sucesso no Centro de Florianópolis, o projeto do Samba da Búia busca se envolver mais diretamente com outros cantos da cidade, principalmente com os morros e periferias, de onde parte dos membros do grupo são nativos.
Uma iniciativa que serviu de primeiro passo para esse plano foi a roda que aconteceu no dia 13 de janeiro de 2024 na Comunidade Chico Mendes, no bairro Monte Cristo, na parte continental de Florianópolis. Lucas fala que “ali foi um ponto de virada, onde a gente realmente começou a colocar as ideias que a gente tinha não no papel, mas na roda mesmo, né? Na prática! Então, acho que isso é bastante importante pra gente poder levar esse projeto e começar a fazer ele ser parte da cidade efetivamente.”
Gabriel também comentou sobre esse projeto e como ele vem se desenhando na trajetória do grupo. “Tem um reduto aqui no centro chamado Ixtimadinho, onde se reúnem vários bambas do samba, vários mestres nossos, né? E conversando com um desses mestres, que é o Geison Dias, um sambista aqui já antigo, ele falou sobre uma entrevista que ele viu e trouxe a frase ‘pô, o samba tá perdendo o berço’ e eu falei ‘não, gente! vamo resgatar o berço!’ e comecei a jogar essa ideia pra galera, de ocupar as comunidades. E agora a gente fez esse primeiro evento no Monte Cristo que, cara, foi muito bonito, muito legal. E eu percebi que é muito difícil a comunidade, de primeira, chegar e colar. Mas, se for um movimento que acontece realmente insistindo em ocupar esse espaço, eu boto muita fé que a comunidade vem junto, ainda mais que a gente tem de parceiro agora o Saul [Smith], que é DJ, e traz essa conexão com a galera mais jovem, né? Coloca um ritmo no intervalo que não é um samba, é outra coisa. Aí a gente começou a perceber a importância mesmo de ocupar a comunidade com o samba, pra levar essa história do Rio da Bulha, mas também ter esse lance que capta, que puxa a juventude, a galera mais nova. É uma combinação que tá rolando, são projetos futuros que estão acontecendo já, né?”

Das rodas do Samba da Búia que tive o prazer de acompanhar, ouvi composições que já foram cantadas pelo Grupo Fundo de Quintal, por Marlene, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Adoniran e sambas que me eram desconhecidos. Mas ouvi também os sambas autorais de Gabriel Rosa, como “Feliz Felicidade”, e também de Natan Severino, com “Nas Alturas”, composição que faz parte da peça Percursos: O Último Voo de Um Menino, do Poeira Grupo de Teatro (do qual Gabriel também faz parte). “Eu fiz essa música como uma forma de mostrar uma outra geografia de Floripa, tá ligado? Floripa é uma cidade muito bela, com 42 praias, e ‘o melhor lugar pra você curtir suas férias e gastar seu dinheiro’, mas esse marketing todo, essa força de marketing largada nessa cidade, ela esquece de uma outra rapaziada que tá ali na base do rolê, né? E essa música é isso: mostrar essa geografia invisibilizada de Floripa, falar sobre os morros. Eu sou muito feliz de ter conseguido, de ter sido iluminado pelos meus guias, por quem tá comigo, e fazer essa música, porque ela me dá muita satisfação, muita alegria.”
Lucas fala que a sua composição ainda precisa dar uma “firmada” antes de pra trazer pra Búia. Ele também me disse que estão trabalhando músicas da Anis para trazer pro samba e também convencendo a Mirella a cantar uma sua. “A gente tá num movimento bem massa de puxar um repertório mais autoral mesmo”, conclui ele.
Com a potência ancestral do samba, um presente sólido e um futuro promissor, o Samba da Búia começa 2024 com força total para fazer suas águas deságuarem em cada vez mais espaços. Que assim seja!


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